FaveLab "foge do conceito de hub de inovação", diz Neto Muniz
Para diretor, hub criativo nasce com a missão de "ser diferente dos iguais"; segundo Neto Muniz, FaveLab busca integrar juventude, cultura, inovação, e oportunidade
Hubs de formação e negócios são algo bem comum para quem lida com o ecossistema de inovação. A ideia de reunir startups, fomentar iniciativas, e pensar projetos "fora da caixa" é executada diariamente em dezenas de locais do tipo em todo o país. Um hub "para a favela", no entanto, traz uma visão pouco presente nesse ramo.
E é de novas visões que surgem as ideias mais inovadoras. Esta é a proposta do FaveLab, um "hub criativo" que está sendo montado pela Central Única das Favelas (Cufa) na Praia de Iracema, em Fortaleza. A ideia do projeto é oferecer, a jovens das periferias, o mesmo tipo de experiência e oportunidades dos polos de inovação geralmente localizados em grandes centros econômicos.
O local não foi escolhido por acaso. A cerca de 500 metros do FaveLab está o Poço da Draga, favela mais antiga da capital, que completa 120 anos de existência em 2026. A comunidade já sofreu diversas ameaças de remoção, com parte dos moradores saindo em 1965. Nos anos 2010, ocorreu a tentativa mais recente, no projeto de construção do Acquario Ceará. A obra, alvo de inúmeras disputas judiciárias, foi cancelada, e o terreno, com a construção ainda nas primeiras etapas, foi doado à Universidade Federal do Ceará (UFC) para construção do campus Iracema.
Imediatamente ao lado do FaveLab fica o Estoril, tradicional ponto de encontro boêmio na Praia de Iracema. Segundo Neto Muniz, diretor do FaveLab, este elemento também influenciou na escolha do espaço. "A Praia de Iracema é um ambiente onde pulsa a juventude, pulsa a cultura, pulsa a inovação", diz ele, "porém, ainda estava pendente, de fato, um equipamento que pudesse integrar tanto a juventude quanto a cultura, a inovação, a oportunidade".

FaveLab quer unir educação, cultura, tecnologia, empreendedorismo e inovação
Os aspectos da cultura e do senso de comunidade são sempre frisados por Muniz, que afirma que a distinção das prioridades do FaveLab está expressa no nome. "Ele foge do conceito do 'hub de inovação'. Se você botar 'hub de inovação' no Google, vai parecer tudo 'Control C, Control V'", brinca. "O nosso hub tem que ser diferente dos iguais. Como? Ele tem que ser construído dia a dia, ouvindo as pessoas, ouvindo o nosso público". Com isso, diz ele, veio a ideia de "hub criativo".
No local, a expectativa é realizar formações e proporcionar um espaço para que os jovens possam protagonizar suas histórias. Os cursos focarão nas áreas de tecnologia, cultura, empreendedorismo e indústria criativa. "Se o jovem entra aqui no nosso espaço sem nenhuma perspectiva de vida profissional e, a partir das nossas atividades sai daqui e vai direto para o mercado de trabalho, a gente já fica satisfeito. Se o jovem faz a formação, sai, e monta a própria empresa, a gente está satisfeito. Mas, se o jovem consegue montar um projeto, montar uma startup, e se sobressair com as demais, a gente também fica feliz", afirma.
O que vai impactar a nossa felicidade não é a cifra, é a oportunidade que aquele jovem teve de reescrever a história dele, seja acadêmica, seja profissional.
Para viabilizar as formações, a Cufa fechou parcerias com os Ministérios da Educação e dos Direitos Humanos. Os órgãos forneceram um aporte que permite viabilizar cerca de mil horas de cursos, mas Muniz pontua que, intencionalmente, apenas uma parte desse total está com projetos já definidos. "A gente determinou que uma carga horária de aproximadamente 400 horas vai ficar 'guardadinha' ali. No decorrer dos 22 meses, que é o tempo de execução, surgirão novos cursos e novas demandas". Com essa estratégia, segundo ele, é possível garantir que haverá verba e estrutura para realizar formações adicionais, e a intenção é que o público do local defina quais serão as prioridades da programação.
Outro aspecto é que, além de cursar as formações, os jovens também terão acesso a oportunidades de renda já no local. Haverá um "espaço de empregabilidade", onde serão ofertadas vagas de trabalho. Caso o estudante considere a possibilidade de montar um projeto autônomo, uma agência de microcrédito do Banco do Nordeste funcionará de forma fixa no local.
Uma exigência do FaveLab é que os jovens ofereçam uma “contrapartida social” das formações. As possibilidades, segundo Muniz, são variadas: um estudante que esteja fazendo uma formação relacionada a tecnologia móvel, por exemplo, pode auxiliar familiares ensinando-os a usar novas funções dos celulares. Mesmo trazer amigos para participarem de formações, de acordo com ele, é uma maneira de oferecer esse retorno ao equipamento. O objetivo é massificar os impactos gerados pelo FaveLab.
O aluno se matriculou para fazer uma formação, ele vai ter um impacto, ele vai ter que ter uma contribuição social. Mesmo que essa contribuição social esteja ele ensinar um aplicativo à mãe dele, ao pai dele, ao avô, ou voltar na comunidade dele para dar um treinamento, dar uma palestra.
Projeto do FaveLab foi inspirado por experiências no Brasil e no exterior
Neto pontua que o projeto está sendo pensado há aproximadamente um ano, e que a ideia surgiu das experiências de Preto Zezé, fundador da Cufa e presidente da regional RJ da entidade. Zezé se inspirou em iniciativas similares da Cufa em outros locais do Brasil e do exterior — atualmente, a organização atua em cerca de 60 países — para a ideia inicial, e foram fechadas parcerias institucionais para viabilizar a construção do espaço.
No momento, apenas parte da estrutura do FaveLab está em funcionamento. O prédio, pertencente à Prefeitura de Fortaleza, abrigava a Fundação de Ciência, Tecnologia e Inovação de Fortaleza (Citinova), órgão da gestão municipal, e foi cedido à Cufa em meados do ano passado. No entanto, a estrutura do local estava severamente degradada, exigindo inúmeros reparos para poder abrigar o equipamento.
Atualmente, somente a sala multiuso — que pode ser usada para reuniões, aulas, palestra, descanso, entre outras atividades — está equipada. Ao fim das obras, o espaço terá, entre outros, um laboratório, um estúdio de podcast, e uma agência de comunicação. Nestes locais, os jovens receberão treinamentos em diversas áreas, aprenderão a operar os equipamentos, e receberão consultoria para tocar iniciativas próprias.










