Vagas fantasma: LinkedIn e sites de emprego podem ter anúncios falsos
Os fantasmas se divertem... E publicam vagas de emprego, também (crédito da imagem original: Tandem X Visuals/Unsplash)

Vagas fantasma: LinkedIn e sites de emprego podem ter anúncios falsos

Posições que nunca são preenchidas podem, na verdade, não existir; veja motivos pelos quais empresas anunciam vagas de emprego falsas e como se proteger

Esta é a terceira reportagem da série "A internet morreu?", que analisa como conteúdos falsos tomaram conta da rede. Você pode conferir a primeira matéria, que apresenta uma explicação introdutória sobre o problema e como ele afeta as nossas vidas, clicando aqui.

Sabe aquele anúncio de emprego que parece ter sido feito para você? O nível de qualificação, os conhecimentos exigidos, o perfil de candidato ideal e a cultura da empresa, todos alinhados exatamente com o que você busca e oferece. Mas, ao se candidatar, não há nenhum retorno. Nem convite para entrevista, nem rejeição oficial. Não que isso torne a situação menos frustrante, mas há grandes chances de que o problema não seja seu currículo: é possível que a posição à qual você imaginou estar concorrendo nunca tenha existido, sendo apenas uma "vaga-fantasma".

E eu com isso?

Por que essa matéria é importante:

A busca por emprego é um processo que toma tempo, energia, e, habitualmente, dinheiro. Quando empresas anunciam vagas falsas, todo esse esforço é desperdiçado, e poderia ter sido dedicado à busca por uma posição de trabalho real. Este texto mostra como o problema é mais comum do que se pensa, e como se proteger das vagas-fantasma.

Quando caçar um emprego torna a pessoa uma "caça-fantasmas"

Formação original d'Os Caça Fantasmas
Para ser justa, muito provavelmente os Caça-Fantasmas jamais publicariam uma vaga fantasma

Um dito popular bem pouco valorizado pontua que "procurar emprego é um emprego". De fato, essa busca demanda tempo e energia tanto quanto uma ocupação remunerada: elaborar um currículo, imprimir várias cópias, "bater perna" atrás de locais que estejam contratando, procurar oportunidades compatíveis, participar de processos seletivos cada vez mais complexos e com mais etapas... Sem contar os anúncios que demandam cartas de apresentação, exigência habitual em posições internacionais e que tem se tornado comum também no Brasil.

Há ainda o problema do gasto de dinheiro, pois muitas vagas exigem presença física para a entrega do currículo, nas entrevistas, ou em ambas as situações. Por fim, todo esse desgaste não traz garantia alguma de que a pessoa será contratada, o que causa, em muitos candidatos, uma frustração compreensível.

A frustração é, também, mensurável: segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 2,6 milhões de "desalentados", como são chamadas as pessoas que desistiram de procurar uma ocupação pela dificuldade de conseguir oportunidades que não apresentem condições abusivas, como jornadas extenuantes ou pagamento incompatível com a demanda da função e/ou a experiência exigida. Ainda que a taxa de desocupação seja a menor da série histórica, o dado preocupante é que, de cada três pessoas (da população economicamente ativa) que estão sem emprego, uma permanece nesta situação por não ter mais esperanças de encontrar um trabalho digno.

Chegamos, assim, à questão das vagas falsas. Um dos motivos mais comuns da frustração que leva ao status de "desolado" é a falta de retorno após se candidatar a uma vaga de emprego. Em grande parte dos casos, a pessoa sequer é informada que não foi selecionada, havendo apenas um silêncio eterno sobre o processo seletivo.

Parte disso ocorre, obviamente, porque conduzir um processo seletivo também é um trabalho intenso. Gestores, psicólogos e analistas de RH recebem dezenas ou centenas de currículos para cada posição que anunciam, e é inviável contatar individualmente cada candidato para explicar os motivos da recusa.

No entanto, muitas das ferramentas utilizadas nesses processos contam com opções para automatizar o informe às pessoas que não avançam em qualquer etapa da seleção. Nestes casos, portanto, basta uma configuração inicial rápida para que o retorno seja dado sem tomar tempo dos responsáveis pela escolha dos potenciais funcionários.

No caso das vagas fantasma, por outro lado, esse retorno não acontece porque é impossível que aconteça. Se não existe um cargo real para ser preenchido, todos já estão automaticamente desclassificados no exato momento em que se candidatam. Uma vez que não há etapas de análise dos currículos, testes de habilidade, ou entrevistas, não há como informar a uma pessoa que ela não foi selecionada.

Em alguns casos, o retorno até existe. Há posições que permanecem abertas durante dias ou semanas, são encerradas, e imediatamente são criados anúncios idênticos, e os candidatos das oportunidades que foram fechadas são comunicados de que não passaram. Na realidade, o processo seletivo nunca aconteceu.

Em outros, a rejeição chega rápido. Porém, rápido demais: o aviso da desqualificação vem minutos ou mesmo segundos após a candidatura. No Reddit, casos do tipo se acumulam, com usuários chegando a relatar que foram auto-rejeitados dezenas de vezes.

Em outras ocasiões, candidatos chegam até a ser entrevistados, mesmo que a vaga não exista. Há relatos — comuns — de casos em que nem mesmo a empresa existe. No entanto, investigar e descobrir essas ocorrências demanda tempo e disposição, elementos bastante escassos para quem está buscando emprego.

Em todas as situações, a impressão que fica é a mesma: "o mercado tem várias oportunidades, mas meu currículo não é bom o suficiente". Com isso, soma-se, à pressão de estar sem emprego e ao desgaste do processo de buscar recolocação, a frustração de, supostamente, não ter competência para conseguir uma nova oportunidade.

Os efeitos que este tipo de problema causam na saúde mental de quem procura trabalho podem ser devastadores. Ainda assim, segundo um estudo do site Resume Builder, que ajuda candidatos a construírem currículos otimizados, 70% dos recrutadores considera que anunciar vagas falsas é "provavelmente" ou "com certeza" moralmente aceitável.

O quão grande realmente é o problema das vagas falsas?

Gráfico com número de contratações por vaga publicada, indo de 0,75 em 2018 a 0,49 em 2023
Em 2018, três a cada quatro anúncios de emprego resultavam em contratação; em 2023, metade das vagas anunciadas não existiam — e o número atual pode ser ainda pior

Em resumo, bem grande. Segundo uma investigação do portal MyPerfectResume, concorrente do Resume Builder, uma a cada três vagas de trabalho anunciadas nos Estados Unidos não gera contratações. A chance de uma oportunidade anunciada não levar, realmente, a emprego algum, é maior que a chance de alguém jogar cara-ou-coroa duas vezes e acertar ambos os palpites.

É relevante que as análises tenham sido feitas por sites deste nicho de mercado. Estas empresas desenvolvem ferramentas a partir de orientações dadas por profissionais de recrutamento, com o objetivo de tornar os currículos dos clientes mais competitivos, na comparação com candidatos de qualificação similar.

Ou seja: se mesmo os currículos de candidatos qualificados às vagas ofertadas, otimizados segundo a orientação de especialistas em recrutamento, estão sendo rejeitados com uma frequência tão alta que faz estas empresas analisarem o fenômeno, é porque há um problema mais amplo causando a situação.

Os números, no entanto, podem ser ainda maiores. O MyPerfectResume usou dados oficiais do Escritório de Estatísticas Trabalhistas, órgão do Departamento do Trabalho estadunidense. Foram consideradas, para o levantamento, apenas vagas que as empresas reportaram ao governo terem anunciado, e não a quantidade total de vagas anunciadas na internet ou de forma offline.

70% dos recrutadores considera que anunciar vagas falsas é 'provavelmente' ou 'com certeza' moralmente aceitável.

Uma análise da consultoria Revelio Labs indicou que, em linhas gerais, menos da metade dos anúncios de trabalho resulta em uma contratação. Ou seja: a chance de você acertar no cara-ou-coroa uma vez já é maior do que a de uma vaga de emprego ser real. Na pesquisa da Resume Builder, recrutadores de 40% das empresas relataram ter criado uma ou mais vagas falsas no ano anterior, enquanto 30% afirmaram ter, naquele momento, ao menos um anúncio ativo que não correspondia a uma oportunidade real.

O problema já seria preocupante em qualquer situação. No entanto, quando se considera que diversas empresas — especialmente no mercado de tecnologia, mas o fenômeno em si se estende a todos os ramos de atuação — estão buscando substituir trabalhadores por IAs, a situação se mostra ainda mais grave. Os prospectos futuros indicam um cenário em que trabalhadores estão não apenas sob um risco intenso de serem substituídos por ferramentas automatizadas, mas, também, que, após serem demitidos, precisarão buscar emprego em um mercado de trabalho no qual grande parte das vagas anunciadas sequer existe.

Esta situação desmonta o principal argumento usado por empresas — e governos — em relação a estes cortes, de que basta se qualificar para manter-se relevante no mercado. A maior parte das formações é paga, e, mesmo as gratuitas, demandam tempo e esforço. Quando a pessoa já está desempregada, isto implica também em uma sangria de dinheiro, em um contexto no qual é necessário fazer o exato oposto, poupando e racionando todos os recursos possíveis até uma eventual contratação.

Isso é válido, inclusive, para os incontáveis "cursos de IA" divulgados de forma insistente como a solução para o caos que se aproxima. Se uma parcela da força de trabalho é dispensada por ter tido suas funções automatizadas, não há quantidade de formações que garanta a estas pessoas contratação em outros locais, já que as oportunidades de emprego não "mudaram de local", mas foram, na verdade, extintas. Esta realidade pode ser brevemente disfarçada com o uso de vagas falsas, mas não por muito tempo.

Por que as empresas anunciam vagas de emprego falsas?

Há diversas respostas para esta pergunta. À Resume Builder, os recrutadores indicaram alguns motivos, enquanto outras razões foram elencadas por representantes das plataformas MyPerfectResume e Resume.org à publicação Workspan Daily, da empresa de benefícios trabalhistas World at Work. Veja a seguir:

  1. Banco de talentos: algumas empresas alegaram que, mesmo que a vaga não exista naquele momento, ela será aberta eventualmente. Manter anúncios "permanentes" permitiria aos recrutadores, então, já ter uma boa quantidade de potenciais funcionários desde o primeiro momento do processo seletivo real, em vez de precisarem aguardar candidaturas ao longo de alguns dias;
  2. "Dar uma olhadinha" no mercado de trabalho: Quem se candidata a vagas falsas está, também, se candidatando a vagas reais — quando estas existem, ao menos. Com isso, os anúncios sem intenção de contratar permitem aos recrutadores saber quais habilidades as empresas concorrentes têm buscado nos funcionários daquelas áreas, a faixa salarial que oferecem, entre outras informações;
  3. "Fake it until you make it": se uma empresa está constantemente contratando, é porque está crescendo. Publicar vagas falsas, portanto, permite fazer a saúde financeira do negócio parecer, para investidores, melhor do que realmente está;
  4. Benefícios tributários: com frequência, acordos de isenção de impostos exigem que as empresas mantenham um número mínimo de trabalhadores na cidade/estado/país que concede a isenção. Com vagas falsas, é possível manter esses acordos válidos com uma quantidade de funcionários reais bem abaixo da estipulada nos termos, pois, supostamente, as empresas "estão tentando" chegar àquele número;
  5. Pressão nos funcionários atuais: conduzir um processo seletivo é caro e exige tempo, de modo que, muitas vezes, é mais prático manter pessoas em seus cargos, mesmo que pouco produtivas, em vez de demiti-las e procurar substitutos. No entanto, funcionários que acreditam estar sob risco de demissão tendem a aumentar a produtividade, mesmo que não estejam realmente sob risco de demissão. Portanto, o anúncio de vagas falsas é uma maneira de manter os trabalhadores com medo constante de perderem o emprego, o que faz com que se esforcem além do que deveriam, pelo salário pago;
  6. Fingir que reforços estão a caminho: outra forma de enganar os funcionários é manter vagas falsas abertas para que equipes sobrecarregadas acreditem que a empresa está buscando ampliar aquele setor. Deste modo, os trabalhadores, achando que o cenário de desgaste vai ser atenuado em breve, se dispõem a aguentar por "mais um tempinho". O problema é o "um tempinho" em questão não termina, pois nunca houve intenção de efetivamente aumentar a equipe;
  7. Coleta de dados: tanto fraudadores quanto empresas de verdade podem usar vagas falsas para coletar informações atualizadas de pessoas reais, em especial para posições operacionais, que recebem uma quantidade gigantesca de candidaturas. Esse material pode ser vendido para corretores de dados (ou data brokers) ou usado para treinar modelos de IA com diversos fins — inclusive IAs que selecionam currículos para vagas reais;
  8. Simular cumprimento da legislação: em alguns locais, a lei exige que uma posição seja anunciada publicamente para, só então, a empresa poder fazer seleções internas. Há lugares com normas semelhantes para funções terceirizadas, e, em alguns países, é necessário comprovar que houve uma tentativa de encontrar funcionários localmente antes de contratar estrangeiros. Como não há fiscalização sobre a materialidade destes processos seletivos, as empresas podem simplesmente anunciar as oportunidades de emprego, mesmo que já tenham decidido que a vaga será preenchida de outra forma, e nunca entrar em contato com os candidatos.

Como identificar e se proteger de vagas falsas

Listagem do LinkedIn com vagas de emprego falsas
Exemplo de vaga falsa, ou “vaga fantasma”, no LinkedIn: à esquerda, vários anúncios para a mesma posição, com cidades diferentes e indicando um emprego remoto; à direita, detalhes da vaga mostram cargo presencial, em cidade diferente das anunciadas

Não é possível evitar 100% das vagas-fantasma, mas há maneiras de se proteger em, pelo menos, grande parte dos casos. Veja a seguir algumas dicas de elementos que devem gerar desconfiança:

  • Veja há quanto tempo a vaga foi publicada: com frequência, vagas-fantasma ficam abertas por semanas ou meses. Mesmo que uma empresa tenha dificuldades em conseguir o candidato ideal, o mais comum é que uma vaga verdadeira seja encerrada quando o processo deixa de receber currículos e avança à fase de entrevistas. E, de toda forma, se a empresa está com dificuldades para conseguir preencher uma posição, é provável que esteja exigindo demais ou oferecendo de menos;
  • Confira se existem vagas duplicadas: é comum que vagas-fantasma sejam publicadas de forma massiva, com diversos anúncios idênticos ou muito similares, destinadas, por exemplo, a várias cidades diferentes. Frequentemente, ocorre também de uma vaga falsa ser encerrada e outra criada imediatamente em seguida, com a mesma descrição. Ou seja: se um anúncio parecer muito similar a outros que você já tenha visto, é porque provavelmente aquela posição não existe;
  • Desconfie de descrições muito genéricas: nenhuma empresa abre vagas sem determinar de quais funcionários precisa — mesmo que, por má gestão, acabe priorizando a contratação de profissionais para as posições erradas. Elas também têm plena noção do orçamento disponível para aquele cargo. Portanto, se um anúncio tem um escopo aberto demais, se está disponível para pessoas com experiências em muitas áreas, se a faixa salarial é excessivamente ampla, ou se não há descrição exata das tarefas que serão executadas, há altas chances de ser um anúncio fictício;
  • Avalie se o processo seletivo pede dados excessivos: sites como Gupy, Catho e outros que abrigam diversas vagas habitualmente pedem dados pessoais durante o cadastro. Ao enviar uma candidatura por meio destas plataformas, somente aqueles que forem relevantes para as vagas, como experiência prévia e formação, são compartilhados com as empresas. No entanto, vagas — nestes sites ou em qualquer local — que pedem que você forneça número de documentos, endereço completo, entre outros, podem ser golpes, e é extremamente perigoso compartilhar estas informações;
  • Confirme se algum canal oficial da empresa mostra a vaga disponível: grandes empresas costumam ter sistemas próprios para gestão de vagas e candidaturas. Companhias menores, com frequência, usam as redes sociais para anunciar posições disponíveis. Se a oportunidade não está na seção "trabalhe conosco", nem foi divulgada em qualquer meio oficial, é melhor evitar enviar seus dados, por mais tentadora que a oferta pareça — e, especialmente, se for muito tentadora;
  • Cheque se as funções e o cargo são compatíveis: ou a vaga é falsa, e foi publicada usando um texto pré-pronto; ou vão lhe pagar o salário de uma função e exigir que você faça o trabalho de cinco pessoas — uma vaga verdadeira, portanto, mas uma vaga arrombada. Em ambos os casos, a recomendação é passar longe;
  • Se o processo tem etapas demais, não alimente esperanças: neste caso, não necessariamente a vaga é falsa. Segundo um estudo do LinkedIn, 77% dos candidatos brasileiros considera os processos seletivos longos demais — e o problema é similar em outros países. No entanto, se as entrevistas parecem levar apenas a outras entrevistas, e há uma grande quantidade de provas e testes — em especial, se estes não forem remunerados —, a prioridade da empresa provavelmente é justificar por que não contratou alguém para a posição, e não contratar de fato alguém.
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