Merdificação, parte 3: computadores com enshittification "de fábrica"
Se o próprio sistema operacional é pensado na lógica da merdificação, não basta se livrar de aplicativos e parar de usar sites que tenham enshittification (crédito da imagem: Colagem sobre arte de Devin Washburn)

Merdificação, parte 3: computadores com enshittification "de fábrica"

Pouco adianta despender um esforço imenso tentando evitar merdificação em sites e apps se o próprio dispositivo tem enshittification como "funcionalidade"

Esta é a terceira parte do especial sobre enshittification, ou "merdificação". Você pode conferir, nos links a seguir, o primeiro, o segundo e o quarto textos.

Comparada à parte anterior, esta será um tanto mais rápida. Agora que você já entendeu os mecanismos pelos quais a merdificação opera, é possível perceber como ela é embutida não apenas em sites, apps e serviços, mas também nos próprios sistemas operacionais dos dispotivos que você usa.

E eu com isso?

Por que essa matéria é importante:

A merdificação não é uma coincidência ou um acaso, e sim um elemento fundamental do capitalismo de plataforma. Entender como esse modelo de negócios funciona é o primeiro passo para se libertar das empresas que o adotam — e evitar ser vítima de outras no futuro.

Merdificação no Windows: o problema começa ao ligar o computador pela primeira vez

Processo de configuração inicial, ou onboarding, do Windows 11, também conhecido como OOBE
Passo-a-passo para configurar o Windows sem uma conta da Microsoft exige pó de chifre de uncórnio, uma rosa negra colhida exatamente às 8:27 da primeira sexta-feira de setembro, e o sangue do seu primogênito (crédito da imagem: reprodução / Microsoft)

Aqueles que já estão há mais tempo lidando com tecnologia, caso tenham precisado, em tempos remotos, fazer uma (re)instalação do Windows, vão lembrar que a experiência era terrível até a versão XP. Com a chegada do Vista, isso melhorou um pouco, mas o sistema era tão problemático (não ruim, mas exigente demais para os computadores daquela época) que instalá-lo era, provavelmente, a parte menos desagradável.

Com o Windows 7, a situação mudou bastante, com um processo amplamente automatizado, compatível (ainda que não de forma otimizada, mas, ao menos, de forma funcional) com a maioria dos computadores. Esta experiência foi refinada nas versões 8, 8.1 e 10, e mesmo as primeiras iterações do Windows 11 eram bastante aceitáveis.

Mas só as primeiras.

O "onboarding" do Windows é chamado de "OOBE" (Out Of Box Experience, "experiência de tirar da caixa", em tradução livre, fazendo alusão ao ato de abrir a embalagem de um computador novo e ligá-lo pela primeira vez). Mas, hoje em dia, poderia ser chamado de "ooze" (gosma), porque causa ojeriza.

No lançamento do Windows 11, muito se discutiu sobre os novos requisitos de sistema, com computadores mais antigos — mas ainda perfeitamente capazes — sendo incompatíveis com as especificações mínimas exigidas. A título de exemplo, tenho um MacBook Pro de 2012 que, ainda que não rode o sistema de forma maravilhosa, é perfeitamente utilizável para tarefas mais básicas.

A última versão do macOS compatível oficialmente com este modelo — Catalina, lançada em 2019, que recebeu a última atualização de segurança em 2022 — é, grosso modo, tão rápida nele quanto uma atualização do Windows 11 lançada em abril de 2026. Versões mais recentes do sistema da Apple, como o Ventura — de 2022 (atualizado até 2025), e que pode ser instalado, com modificações, em modelos mais antigos e não oficialmente compatíveis —, são significativamente mais lentas que o Windows 11.

O que ninguém esperava é que a experiência de uso do Windows 11 fosse ser tão ruim por outros motivos. E não, não estou falando do menu Iniciar absolutamente deplorável, embora ele seja, de fato, absolutamente deplorável.

Estou falando do fato de que é virtualmente impossível usar Windows, hoje, sem ter uma conta da Microsoft.

A mudança, como qualquer merdificação de longo prazo que se preze, veio aos poucos. No início, o Windows 11 sugeria que você conectasse sua conta Microsoft para usar o sistema. Após isso, o sistema meio que obrigava o cadastro, mas, se você clicasse na combinação correta de botões-que-não-parecem-botões, conseguiria se livrar da exigência. Em seguida, só era possível configurar o Windows com uma "conta local" se, durante a OOBE, você não ligasse o computador à internet — nem em uma rede cabeada, nem por Wi-Fi.

Atualmente, o processo é, digamos... Menos intuitivo. Em resumo:

  1. Caso use rede com fio, desconecte o cabo;
  2. Ligue o computador, o Windows deve entrar na OOBE;
  3. Se o computador pedir para conectar a uma rede Wi-Fi, tente pular esta etapa;
  4. Ao chegar na tela para se conectar à conta Microsoft, segure Shift e aperte F10;
  5. Uma janela preta, com texto em cinza, aparecerá. Clique nela;
  6. Digite "start ms-cxh:localonly" (sem as aspas) e aperte Enter;
  7. Outra janela deve abrir, com a opção de criar uma conta local.

Como pode-se ver, são passos super simples, longe de algo que o usuário médio não teria como saber. Só que ao contrário.

A parte ruim (no caso, a parte pior) é que o Windows ficará constantemente "sugerindo" que você conecte uma conta Microsoft, não importa quantas vezes você recuse. O "consolo" é que, se você conectar uma conta Microsoft, mas rejeitar "sugestões" como a de ativar o backup automático ou fazer login no OneDrive, o Windows também irá lhe perturbar incansavelmente, sempre que o computador for ligado. Ok, isso não foi um consolo.

A expectativa, como sempre, é vencer o usuário pelo cansaço, ou esperar que ele clique uma única vez, sem querer, na opção errada (ou, do ponto de vista da empresa, correta). Com isso, entregará uma torrente de dados pessoais, mesmo que tenha se recusado a fazer isso nas 8.372 vezes anteriores.

Como desfazer o estrago? É simples, basta seguir qualquer tutorial de 83 etapas disponível no YouTube, em guias com 40 minutos de duração, que têm instruções pouco elucidativas e lhe obrigam a assistir 19 propagandas durante a duração do vídeo — para, no penúltimo passo, orientar a mudar uma configuração que não existe no seu computador, porque o tutorial foi gravado com uma versão desatualizada (leia-se "lançada há três meses") do sistema, e, antes de achar um tutorial que se aplique à sua versão, você precisa reverter todo o processo, pois, se não o fizer, seu computador não conseguirá mais abrir o Windows. Se foi cansativo ler tudo isso sem um ponto final, imagine o quão cansativo é ter que fazer um processo do tipo.

macOS, "o suprassumo da usabilidade", também tem uma forte dose de merdificação

Ferramentas de proteção do macOS Gatekeeper e User Privacy Protection
“Quem abre mão da Liberdade essencial para conseguir um pouco de Segurança temporária, não merece nem Liberdade, nem Segurança” — Benjamin Franklin (1755, tradução livre)

Uma máxima do jornalismo diz que o trabalho está sendo bem feito se as pessoas de esquerda lhe acusam de ser de direita, e as pessoas de direita lhe acusam de ser de esquerda. Particularmente, rejeito esse preceito: na minha visão, um jornalismo que não seja feito à esquerda, não cumpre sua obrigação de defender os interesses do povo.

No entanto, isso gera uma analogia muito válida para o jornalismo de Tecnologia. O trabalho bem feito é aquele que é acusado, pelos fãs da Apple, de ser favorável ao concorrente da Apple no segmento em questão (habitualmente Samsung e Google, se estamos falando de celulares e tablets; e Microsoft, no caso de computadores, independente de qual seja o fabricante do computador); e, pelos fãs do concorrente da Apple no segmento em questão, é acusado de ser favorável à Apple.

E nisso tenho experiência: passei um ano e meio escrevendo, na parte de Tecnologia, praticamente só sobre a empresa. Elogios a ela foram feitos, quando devidos, assim como as críticas.

E uma das críticas em questão é justamente que nem mesmo a Apple, que tanto se orgulha da usabilidade dos seus produtos, foge da merdificação. Pelo contrário: quando atende aos interesses da empresa, ela é uma das empresas que eleva a prática ao estado da arte.

Consideremos, aqui, o fechamento progressivo do hardware da empresa. Atualmente, os computadores da Apple são tão problemáticos, no aspecto físico, quanto iPhones e iPads: componentes soldados, de difícil acesso, e partes que são registradas com o número de série do item original — impedindo que um dispositivo quebrado seja "doador" de peças para outros.

Recentemente, o MacBook Neo trouxe uma mudança drástica neste quesito. No entanto, o modelo é um aparelho bem distinto do habitual, inclusive no público-alvo, com a reparabilidade sendo um elemento importante para reduzir custos (de fabricação, impactando no valor de venda; e de manutenção, impactando no quanto o cliente gasta com o produto ao longo do tempo) para atingir o público-alvo em questão.

De forma similar, a empresa tem investido no fechamento progressivo do software. É um processo, inclusive, mais antigo: os primeiros MacBooks Pro com memória soldada e armazenamento em formato proprietário foram lançados em 2013, enquanto a Mac App Store, cujo objetivo final é garantir, nos computadores, um controle tão restrito dos aplicativos quanto o executado nos celulares e tablets, foi lançada em 2010.

Tecnicamente, o MacBook Air, que também tinha a memória soldada e o armazenamento em um formato usado apenas pela Apple, precede a Mac App Store em dois anos. No entanto, mesmo que a linha tenha sido um sucesso imediato, à época do lançamento da loja de aplicativos, a empresa ainda avaliava o desempenho de mercado dos seus notebooks ultrafinos. Os MacBooks Pro de 2013, por sua vez, eram atualizações de um produto já bem estabelecido.

Mas divago — apesar de que não muito, uma vez que redução na reparabilidade de produtos físicos é um tipo de merdificação. O foco aqui, no entanto, é o enshittification do sistema operacional.

A promessa da Apple, no lançamento da Mac App Store, é que a plataforma seria mais uma forma de distribuição de aplicativos para os computadores, sem a intenção de substituir o modelo tradicional. Sem surpresas, esta promessa não foi cumprida.

Atualmente, o macOS, por padrão, permite a instalação de aplicativos somente pela App Store. Não é terrivelmente difícil alterar esta opção, mas o fato de ela precisar ser alterada já é, por si só, uma instância de merdificação. No entanto, passa longe de ser a única.

Desde 2015, o macOS conta com uma funcionalidade chamada System Integrity Protection (SIP), ou "Proteção da Integridade do Sistema". Em termos não-técnicos, a SIP impede que arquivos protegidos do sistema sejam alterados, mesmo com o uso de uma senha de administrador. Segundo a Apple, tecnologias como a SIP ajudam a garantir a segurança do computador mesmo que o usuário seja coagido ou enganado e acabe instalando aplicativos maliciosos.

Assim como a limitação de instalar aplicativos apenas pela App Store pode ser removida, é possível desativar a SIP. Mas, para isso, é preciso reiniciar o computador em modo de recuperação e executar uma série de comandos. Diversos aplicativos legítimos, inclusive, só funcionam se a funcionalidade for desativada, de forma total ou parcial.

Alguns tipos de arquivos, como aqueles necessários para que certos acessórios sejam reconhecidos pelo sistema, precisam que ou o fabricante tenha uma licença especial da Apple, ou o usuário desative a SIP. Como a segunda opção é inviável para qualquer empresa que pretenda vender seus produtos para um público amplo, estes fabricantes acabam ficando "reféns" da Apple — afinal, ela pode simplesmente decidir não conceder, por qualquer motivo que seja, a licença, assim como pode revogá-la a seu bel-prazer.

E, aqui, retorno ao impedimento de instalação dos aplicativos. Para terem seus produtos aprovados na App Store, os desenvolvedores precisam atender a uma série de condições da Apple, além de pagar uma taxa anual de US$ 99 (pouco menos de R$ 500) à empresa.

Caso não queiram atender às condições, como o macOS permite a instalação por outros meios, eles podem simplesmente distribuir os aplicativos de outras formas, correto? Sim... Se você ignorar o ponto inicial, de que, por padrão, o sistema permite a instalação de apps apenas por meio da App Store.

E, mesmo neste caso, desenvolvedores que não queiram pagar a taxa — o que não necessariamente ocorre por falta de dinheiro (mas, de toda forma, se fosse por isso, também não seria um problema) — não podem "assinar" seus apps. A assinatura é, em linhas gerais, uma "garantia" de que aquele desenvolvedor é confiável.

Essa garantia, no entanto, é basicamente fornecida mediante o pagamento da taxa, não havendo uma certeza concreta. E há sempre o o risco de que os desenvolvedores tenham a assinatura revogada, caso façam algo que a Apple julgue que aplicativos não devam ser capazes de fazer. Um exemplo? Personalizar a aparência do sistema. Outro? Desenvolver um aplicativo com uma funcionalidade que a Apple deseje integrar ao macOS.

Há, portanto, razões legítimas para que desenvolvedores não queiram pagar a taxa em questão. Porém, se, para aqueles que pagam a taxa, fazer a distribuição fora da App Store já é, no mínimo, inconveniente, os que não pagam podem ter certeza que, em sua maioria, usuários médios jamais terão acesso aos seus aplicativos.

Vejamos o exemplo acima, do aplicativo qBittorrent, uma ferramenta de torrents com anos de desenvolvimento, código aberto, e muito bem conceituada entre usuários. Como a maioria dos projetos de código aberto, o qBittorrent depende da colaboração de voluntários. Há anos, porém, não há voluntários com conhecimento aprofundado em desenvolvimento para macOS, fazendo com que a versão para este sistema seja considerada "praticamente sem suporte". Por este motivo, não há quem forneça a assinatura para o aplicativo, mesmo ele sendo desenvolvido por uma equipe altamente confiável.

No macOS, grande parte dos aplicativos são distribuídos em imagens de disco, arquivos com extensão .DMG que, grosso modo, são um tipo de pasta compactada em ZIP. Para instalar um aplicativo neste formato, o procedimento é — depois, obviamente, de você descobrir como habilitar a instalação por fora da App Store — simples: abra o arquivo .DMG, clique no aplicativo que está dentro dele, arraste-o para a pasta Aplicativos.

No entanto, ao meramente tentar abrir o .DMG do qBittorrent, o macOS bloqueia a ação. O aviso mostra apenas duas opções: fechar o pop-up — em um botão cinza — ou mover o arquivo para a lixeira — em um botão com a cor de destaque do sistema.

Para conseguir abri-lo, é necessário:

  1. Fechar o pop-up sem mover o arquivo para a lixeira;
  2. Ir às configurações do sistema e acessar o menu de segurança;
  3. Rolar até o fim da página, encontrando a mensagem de alerta e selecionando "abrir mesmo assim";
  4. Ver outra mensagem de alerta, novamente com a opção "mover para a lixeira" destacada;
  5. Clicar em "abrir mesmo assim" novamente;
  6. Digitar a senha de administrador.

Após isso, a imagem de disco será aberta, permitindo que você copie o qBittorrent para a pasta de aplicativos. No entanto, isso é apenas parte do processo.

Ao tentar abrir o qBittorrent pela primeira vez, o usuário recebe outra mensagem de alerta. Novamente, é necessário ir às configurações de segurança, selecionar "abrir mesmo assim", passar pela quarta mensagem de alerta, digitar a senha mais uma vez, e só então o aplicativo abrirá.

A situação só não é pior porque, uma vez feito este processo, ele não precisará ser repetido... Até que o aplicativo receba uma atualização, demandando que sejam seguidos, novamente, todos os passos desde a abertura do arquivo .DMG.

Tudo isso ocorre por causa de uma ferramenta do macOS chamada Gatekeeper ("porteiro"). A defesa é a mesma da SIP, de ter como padrão a instalação de aplicativos apenas pela App Store, e de inúmeras outras supostas funcionalidades: "seu sistema fica mais seguro".

Ninguém está insinuando que dispositivos mais seguros não são melhores — embora o preço razoável a se pagar pela segurança (ou pela sensação de segurança) seja debatível. Uma máxima da programação, também muito usada na área de suporte, é que, em algum momento, algum usuário vai executar a ação mais estúpida e danosa imaginável, se esta ação tiver um meio de ser executada. Uma comprovação disso é a existência de usuários que são convencidos, por golpistas, a conectarem, em seus iPhones, uma conta da Apple criada por estes golpistas (o que permite a eles bloquear totalmente o aparelho e extorquir o usuário em questão).

A questão aqui é que o macOS se recusa a aceitar que um usuário já comprovou repetidamente ter entendimento sobre riscos de segurança inerentes a determinadas ações. A ideia de que alguém tenha domínio suficiente sobre o assunto para tomar determinadas decisões sem uma figura paternalista perguntando "você tem certeza disso?" toda vez que você tenta fazer algo que já fez diversas vezes parece, neste contexto, impossível de ser traduzida em linguagem de programação.

Mas, na verdade, isto é derivado de uma lógica mais ampla, como pode ser visto no Windows (ou no Minha Claro, descrito no texto anterior, ou em incontáveis apps/sites/serviços): o desrespeito à agência do usuário.

Se você já recusou conectar uma conta da Microsoft ao sistema, não há motivo razoável para o Windows lhe interpelar novamente sobre o assunto toda vez que o computador é ligado. Se você já pontuou que não quer que um aplicativo tenha acesso a permissões como localização, envio de notificações, ou controle de chamadas — especialmente ao considerarmos que estas permissões são absolutamente desnecessárias para a execução das funcionalidades pelas quais os usuários instalam o aplicativo em questão —, só existem dois motivos para seguir solicitando repetidamente estas permissões: lhe vencer pelo cansaço, ou esperar que você as conceda por engano.

A merdificação é um spam de "desfuncionalidades"

Se chamamos habilidades e ferramentas úteis, em produtos e serviços, de 'funcionalidades', talvez devamos chamar habilidades e ferramentas prejudiciais de 'desfuncionalidades'. E a merdificação é, em suma, um spam de 'desfuncionalidades', oferecidas de forma incessante, até que o usuário as aceite por cansaço ou por engano.

O termo "spam" para descrever e-mails indesejados — geralmente, anúncios de produtos ou serviços nos quais o usuário jamais demonstrou interesse, e cujas propagandas nunca solicitou receber — vem de uma esquete do grupo de humor britânico Monty Python.

Na obra, uma personagem é "bombardeada" com sugestões de pratos a base de spam, um tipo de apresuntado, ao perguntar os itens disponíveis no cardápio. Ela repete, diversas vezes, que não gosta do produto, mas os outros personagens ignoram a reclamação e seguem oferecendo pratos com spam.

O problema de propagandas eletrônicas indesejadas tornou-se tão onipresente que as primeiras tentativas de limitar a prática surgiram ainda nos anos 1990. Inicialmente considerados diferenciais de mercado por provedores de e-mail, hoje os filtros anti-spam são uma das funcionalidades mais básicas de qualquer serviço de correio eletrônico.

Isso leva ao questionamento: por qual razão empresas de tecnologia, de tamanhos diversos tentam, de forma tão insistente, convencer usuários a aceitar condições prejudiciais e produtos/serviços cada vez piores? Se chamamos habilidades e ferramentas úteis, em produtos e serviços, de "funcionalidades", talvez devamos chamar habilidades e ferramentas prejudiciais de "desfuncionalidades". E a merdificação é, em suma, um spam de "desfuncionalidades", oferecidas de forma incessante, até que o usuário as aceite por cansaço ou por engano.


No quarto e último texto da série sobre merdificação, veremos que o enshittification não pode ser explicado apenas por "más escolhas" de quem planeja e desenvolve apps, sites ou serviços digitais. A parte final deste conteúdo mostrará como os chamados "padrões obscuros" são usados para criar uma experiência que prejudica os usuários e beneficia apenas quem comanda estas plataformas. Para que você não fique na expectativa, todos os textos do especial foram publicados simultaneamente, então basta clicar aqui para acessar o próximo material!

Merdificação, parte 1: não é impressão, tudo na internet piorou
Tudo na internet parece que está ficando uma merda. A boa notícia é que não é loucura sua. A má notícia é que tudo na internet está ficando uma merda. (Crédito da imagem: Colagem sobre arte de Devin Washburn)

Merdificação, parte 1: não é impressão, tudo na internet piorou

Também chamada "merdificação" em português, termo criado por jornalista canadense resume tendência do capitalismo de transformar tudo em... Bem, em merda