Merdificação, parte 4: por que enshittification ocorre? Como se proteger?
A merdificação é forte, mas não imbatível — e tem gente na briga contra ela há muito tempo (crédito da imagem: Colagem sobre arte de Devin Washburn)

Merdificação, parte 4: por que enshittification ocorre? Como se proteger?

Apesar de onipresente, o enshittification não é insuperável. Veja por que ele consegue estar "por todos os lados", e como se proteger da merdificação.

Esta é a última parte do especial sobre enshittification, ou "merdificação". Você pode conferir, nos links a seguir, o primeiro, o segundo e o terceiro textos.

"Nunca atribua à malícia o que pode ser adequadamente explicado pela burrice", diz a Navalha de Hanlon. Mas "nunca diga nunca", diz... Bem, Justin Bieber. Deixando de lado a ironia de a frase ter "nunca" duas vezes, factualmente pode-se argumentar que, em pelo menos alguns casos, é possível, sim, atribuir à malícia algo que poderia também ser explicado pela burrice. E este é o caso do enshittification.

É simplesmente impossível que práticas tão semelhantes de piora na qualidade de produtos e serviços; que sempre coincidentemente implicam em tratamento abusivo de usuários; adotadas por empresas valendo centenas de milhões, às vezes bilhões, ou até mais de um trilhão de dólares; e implementadas por alguns dos mais talentosos programadores do Vale do Silício sejam meramente fruto de coincidências infelizes que levaram todas essas empresas e profissionais a serem profundamente incompetentes ou de forma simultânea, ou em intervalos muito curtos.

É tão impossível que já existe uma tonelada de estudos acadêmicos, e incontáveis processos judiciais em diversos países, indicando que estas escolhas são deliberadas.

E eu com isso?

Por que essa matéria é importante:

A merdificação não é uma coincidência ou um acaso, e sim um elemento fundamental do capitalismo de plataforma. Entender como esse modelo de negócios funciona é o primeiro passo para se libertar das empresas que o adotam — e evitar ser vítima de outras no futuro.

O enshittification e os padrões obscuros de design

Em resumo: não é só design ruim.

Nos últimos dias, tenho usado um smartphone novo, o Oppo Reno 14F (em uma edição especial com temática de Star Wars, cujo review será publicado em breve!). Ele me trouxe um ótimo exemplo de design ruim.

No Android, a listagem dos aplicativos instalados costuma ocorrer em um de dois formatos: diretamente na tela inicial, de forma similar ao iPhone (padrão adotado por fabricantes como Xiaomi); ou pela chamada "gaveta de apps", uma parte da interface que o usuário precisa tocar ou arrastar para exibir os aplicativos.

Neste segundo caso, se a exibição for feita de forma alfabética, é comum haver, em um dos lados da tela, uma coluna com todas as letras. Ao tocar em uma letra, a lista de aplicativos é rolada automaticamente para a altura onde estão os apps começados com aquela letra.

Habitualmente, é só isso que acontece, a lista rola até aquela altura. Desta forma, se você quer abrir, por exemplo, a Play Store, mas toca, sem querer, na letra O, a lista vai correr até a altura em que estão, digamos, OneDrive e OLX. Isto acontece com frequência, considerando que as letras são pequenas. Felizmente, como a Play Store está logo abaixo, você consegue imediatamente vê-la e abri-la na mesma hora, mesmo que não tenha tocado exatamente na letra P.

Não é o que acontece no aplicativo de tela inicial da Oppo. Ao, por exemplo, tentar selecionar a letra T, para abrir o Telegram, se eu acabar tocando, em vez disso, na letra S, a gaveta de apps passará a mostrar apenas itens como Shazam, Shopee, Signal, entre outros. É preciso tocar novamente na parte com as letras e torcer para, desta vez, acertar o T; ou — o que tenho feito com mais frequência, dada a frustração após errar várias vezes seguidas — fechar a gaveta de apps, abri-la de novo, e rolar manualmente até a altura onde está o aplicativo que você deseja abrir.

Isto, estimado leitor, é design ruim.

Aqui, há duas possibilidades:

  • Ou a pessoa responsável por desenvolver esta funcionalidade não pensou que, se o usuário errar a letra (em uma parte da tela onde essas letras são minúsculas, fazendo com que o índice de erros seja bem alto), o processo para abrir um aplicativo ganharia, desnecessariamente, três etapas adicionais (fechar a gaveta + abri-la novamente + fazer a rolagem manual);
  • Ou a pessoa pensou nisso, mas decidiu implementar a funcionalidade da forma como foi implementada, mesmo assim, por julgar que a apresentação visual fica (sabe-se lá com base em quais critérios) melhor desta forma.

O que não existe, neste caso, é um esforço intencional para prejudicar o usuário, para coagi-lo a determinadas escolhas, para irritá-lo com solicitações repetitivas que ignoram desejos já expressos diversas vezes anteriormente, ou para enganá-lo com fraseamentos vagos e omissão de informações. Ou seja: a escolha por desenvolver a funcionalidade neste formato, mesmo que deliberada, se baseia, na pior hipótese, em uma concepção excessivamente rígida de como deve ser a interação humano-máquina, e não em um objetivo final de tirar proveito do usuário. E, de toda forma, há uma margem bem significativa de dúvida se a escolha foi realmente deliberada, ou apenas fruto de não perceber que o formato em questão atrapalha a experiência de uso.

Quando você disfarça botões cujas ações são benéficas ao usuário e destaca outros cujas ações são prejudiciais; ou segue exibindo um anúncio que já foi marcado como "não ver novamente"; ou muda o fluxo para compartilhar o link de uma corrida de forma a fazer parecer indispensável que o usuário conceda, ao seu aplicativo, acesso à agenda de contatos; estas escolhas não abrem margem alguma de dúvida: foram decisões tomadas por malícia, não por burrice.

Estas práticas são tão comuns que têm — mais de um — nome: são os chamados padrões obscuros, ou design enganoso. E há subdivisões deles, cuja aplicação depende do contexto, permitindo a adoção de estratégias diversas para atingir fins prejudiciais aos usuários.

O exemplo da Uber é bem direto: a prática usada é a "obstrução". Este padrão obscuro é definido como "deliberadamente criar obstáculos ou empecilhos no caminho do usuário, tornando mais difícil que ele complete uma tarefa desejada ou tome uma certa ação".

No caso do Moovit, são usados o "fraseamento ardiloso" e a "interferência visual" para as notificações. Eles se somam à "assinatura oculta" para aderir ao serviço pago, e os dois primeiros se juntam à "obstrução" para a recusa ao compartilhamento de dados pessoais.

No Happn, a primeira tela já apresenta "interferência visual" e "obstrução". Ao selecionar "outras opções", novamente a "interferência visual", que segue em todas as telas seguintes do onboarding. A apresentação da alternativa menos danosa ao usuário, na última tela, de forma não apenas menos destacada, mas também em localização distinta daquela onde são apresentadas todas as outras opções de interação até o momento, também pode ser considerada uma forma de "obstrução".

Já no Minha Claro, o padrão obscuro mais perceptível é a "importunação", em que o usuário é questionado repetidas vezes sobre um tema a respeito do qual já se posicionou de forma inequívoca. No entanto, o "fraseamento confuso" também se faz presente, por exemplo, ao indicar a sobreposição de tela e informações do telefone como necessários, sem indicar quais são as "ações imediatas" ou o que configuraria uma "melhor experiência digital". Quando começam os pop-ups de permissões do aplicativo, esta mesma tática é usada para que o usuário, por exemplo, forneça dados pessoais para "parceiros" (leia-se "data brokers") da operadora — no vídeo, é possível ver que, neste momento, autorizei o compartilhamento do meu número de telefone, pois, lendo rapidamente, confundi esta opção com outra, que permite ao aplicativo checar meu número exclusivamente para efetuar o login automático, sem necessidade de senha.

Merdificação legislativa: o combate jurídico ao enshittification é uma "briga de gato e rato"

O site que linkei nas exemplificações de padrões obscuros traz, nas páginas que detalham cada prática, casos em que a situação foi confrontada judicialmente em diversos países. Também são apresentados detalhes de legislações que versam sobre o tema e embasaram os precedentes aos quais o site faz referência.

Este tipo de iniciativa é extremamente importante, pois mostra que a merdificação não é inevitável, tampouco irreversível. No entanto, atualizações em leis demandam anos, e processos judiciais também se arrastam por longos períodos.

O problema é: muito provavelmente, sem alterações a nível estrutural no funcionamento da sociedade, as mudanças necessárias para não apenas "desmerdificar o que já está merdificado", como também prevenir que novas merdificações ocorram, vão depender de, justamente, leis e processos judicias.

E aqui entra a única "possibilidade menos impossível" de como fazer isso. É necessário projetar um mecanismo legislativo-jurídico.

No âmbito do texto da lei, é preciso estabelecer critérios claros de não-merdificação com uma redação abrangente, mas não vaga. Algo na linha "é proibido fazer XYZ, mas também não é expressamente permitido fazer qualquer coisa diferente de XYZ; as únicas práticas expressamente permitidas, que não precisam de regulação prévia, são ABC".

Já no aspecto judicial, deve-se entender que o modus operandi padrão das big techs (e de qualquer empresa, no capitalismo) para desviar de responsabilização jurídica pelos seus erros (por negligência, ação ou omissão) é a negação plausível. O objetivo é simples: soterrar processos sob uma torrente de "você não pode provar que nós não estamos fazendo o que você diz que nós não estamos fazendo" em diversos graus.

Em um dos meus textos sobre restaurantes duplicados no iFood, exemplifiquei como a tática funciona: quando uma cliente reclamou de um problema amplamente discutido e documentado (restaurantes com cardápio total ou quase totalmente idêntico, no mesmo endereço, com nomes e identidades visuais distintas, fingindo serem estabelecimentos diferentes), a empresa adotou uma linguagem milimetricamente pensada para se eximir da culpa. Segundo o representante do aplicativo:

  1. "O iFood possui critérios rigorosos para o cadastro de restaurantes" (não foram explicados quais são estes critérios);
  2. "Todos os estabelecimentos passam por um processo de avaliação que inclui a verificação de documentos, inspeção do local e análise do cardápio" (não foram detalhados quais documentos são verificados, de que forma a inspeção é realizada, ou que aspectos do cardápio são verificados, tampouco os critérios para aprovação ou reprovação em cada um destes aspectos, nem se esses aspectos são confrontados com a base de dados do aplicativo para evitar a aprovação de estabelecimentos com documentação, localização ou cardápio idênticos a um restaurante já existente);
  3. "Dentro dos limites da lei, os restaurantes têm liberdade para escolher como querem se apresentar na plataforma" (não foi informado se o iFood confere se a "forma de apresentação" dos restaurantes está dentro dos limites da lei);
  4. "A variedade de restaurantes, mesmo com características semelhantes, oferece aos clientes a possibilidade de escolher aquele que melhor atende às suas preferências" (ignorando que a reclamação da cliente dizia respeito justamente a um restaurante simulando ser vários, gerando o efeito inverso: os usuários não têm possibilidade de escolha, pois todos os estabelecimentos são o mesmo);
  5. "A concorrência entre os restaurantes é um mecanismo de mercado que, em geral, resulta em benefícios para os consumidores, como preços mais competitivos e maior qualidade dos serviços" (independentemente de como o estimado leitor se sinta sobre o livre-mercado, o que ocorre nestas situações é justamente o inverso: não há preços mais competitivos, nem maior qualidade dos serviços, pois, como existe apenas um estabelecimento se passando por vários, ele efetivamente detém um monopólio).

Em momento algum a empresa disse "restaurantes duplicados são proibidos", "nós fiscalizamos se um restaurante está fingindo ser vários", nada do tipo. A tática é inverter o ônus da prova, fazendo com que, em vez de a empresa ter que mostrar que está tomando uma atitude, o usuário tenha que provar que a empresa "não está não tomando" a atitude.

Outro exemplo: quando estudos começaram a comprovar que o Instagram prejudica a saúde mental de adolescentes, a Meta inicialmente se desviou indicando que era necessário provar que a empresa sabia disso. Quando, surpreendentemente, foi provado que a empresa sabia, a Meta se desviou indicando que era necessário provar que eles não haviam feito nada a respeito. Quando foi provado que eles não haviam feito nada a respeito, a Meta se desviou indicando que era necessário provar que eles não pretendiam fazer nada a respeito. E assim sucessivamente.

Quando a legislação diz "XYZ é proibido", as empresas alegam que qualquer coisa anti-ética e imoral que tenham feito não estava no escopo da proibição. Quando a legislação diz "apenas XYZ é permitido", as empresas alegam que qualquer coisa anti-ética e imoral que tenham feito não estava, necessariamente, fora do escopo da permissão. Adotar uma estratégia de proibições sumárias e permissões caso-a-caso é uma maneira — ainda que falha, pois segue considerando justas as regras das quais estas empresas abusaram para chegarem ao nível de poder que chegaram. É, no entanto, a única maneira de exercer algum controle sobre as práticas delas.

Se protegendo da merdificação: interoperabilidade e padrões abertos

A proposta, elaborada pela Electronic Frontier Foundation (EFF), é simples: interoperabilidade. Uma das maneiras de fazer isso é definindo uma base comum de funcionalidades (nível máximo até onde as ações são automaticamente permitidas) e exigir que os diferentes serviços de um mesmo tipo sejam compatíveis entre si nas suas implementações destas funcionalidades (nível mínimo a partir do qual as ações são automaticamente proibidas), incluindo a possibilidade de migrar entre estes serviços.

Imagine, por exemplo, que você usa uma rede social onde é possível mandar GIFs usando uma ferramenta externa, como a busca pelo teclado do Google ou da mesma maneira como se envia uma foto. Nessa rede, porém, não há uma ferramenta nativa para encontrar GIFs. Pesquisando, você descobre outra plataforma, que, como há funcionalidades mínimas exigidas em todas as redes daquele tipo, tem tudo o que você usa regularmente na rede atual, e também uma ferramenta nativa para encontrar GIFs.

Lembremos: entre as funcionalidades compartilhadas entre todas as redes, está a possibilidade de migrar o perfil de usuário. Assim, ao toque de um botão, você pode baixar todas as suas informações da rede atual em um arquivo, e, na outra rede, enviar esse arquivo. Isso é feito de uma forma que mantém todos os seus dados de cadastro, configurações, contatos, histórico de ações, mensagens etc.

Além disso, não é necessário que os seus amigos migrem também para esta nova rede, pois as funcionalidades básicas são compartilhadas. Ou seja: você pode ver as publicações deles, mandar mensagens, e realizar quaisquer outras interações, da mesma forma que eles podem interagir com você.

Parece utópico? Não é, e o próprio Facebook se beneficiou de não ser.

Como Cory Doctorow apontou em outro de seus textos, à época do lançamento, o Facebook desenvolveu uma ferramenta para que o usuário migrasse seu perfil no MySpace. Não havia, entre as duas redes, opções de interoperabilidade, mas, mesmo assim, o Facebook conseguiu criar esta solução.

Um dos exemplos é a forma como o sistema gerenciava mensagens: a ferramenta se conectava à sua conta do MySpace e criava, na sua conta do Facebook, "perfis de enchimento", que representavam seus amigos na rede antiga. Quando um amigo lhe mandava uma mensagem pelo MySpace, a ferramenta encaminhava uma cópia, através do "enchimento", para o seu perfil do Facebook. Você podia responder através do próprio Facebook, e a ferramenta automaticamente copiava a sua resposta e enviava, pela sua conta do MySpace, para o perfil do seu amigo.

Claro, isso foi há 20 anos, a internet era muito diferente. Não teria como algo assim acontecer hoje, certo?

Errado.

O Fediverso como "mapa da desmerdificação"

Logotipo proposto para o Fediverso
Logotipo proposto para o Fediverso (crédito da imagem: Eukombos / Wikimedia Commons)

Ao longo dos textos deste especial, abordei uma dúzia de exemplos de merdificação, talvez mais. Não falei muito, entretanto, sobre redes sociais, salvo algumas menções soltas e descrições mais genéricas.

Isto porque, à exceção dos detalhes mostrados no "mapa da merdificação" que descrevi na primeira matéria, creio ser bastante óbvio que as redes sociais aplicam estratégias de enshittification na sua própria essência. Mas, para um último exemplo, trago uma breve mostra de como foi rodar por 30 posts na linha do tempo do meu Instagram:

Antes de começar o processo, selecionei, nas configurações do aplicativo, a opção "desativar posts recomendados". O resultado, em números, foi:

  1. 10 publicações de perfis e páginas que eu sigo — entre estes, a página do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará (Sindjorce), do qual sou diretora e com a qual, por este motivo, faço collabs (publicações compartilhadas entre dois ou mais perfis) com alguma frequência. Justamente na publicação do Sindjorce, foi exibido uma mensagem questionando se eu tinha interesse naquela publicação;
  2. 7 sugestões de posts sobre assuntos pelos quais jamais demonstrei qualquer interesse;
  3. 1 sugestão de post sobre um assunto pelo qual já demonstrei interesse;
  4. 1 repost;
  5. 11 anúncios;
  6. Além das publicações, também apareceram, na minha linha do tempo, três carrosséis com sugestões de reels.

Relembrando: com a opção de "desativar posts sugeridos" habilitada, a quantidade de itens nas categorias 2 e 3 deveria ser zero. Além de exigir que o usuário selecione novamente esta opção ao menos uma vez por mês, tendo em vista que só é possível desativar estas publicações por 30 dias, a opção sequer funciona como deveria.

Outra questão — esta mais fundamental — é que a categoria com mais publicações, acima de um terço do total, foi a de anúncios. Vamos colocar as proporções em perspectiva:

  • Em uma sessão de cinema com duas horas: 40 minutos de filme, 44 minutos de anúncios, 28 minutos de trailers que não lhe despertam interesse, 4 minutos de trailers pelos quais você se interessou, e 4 minutos de um filme que um amigo seu assistiu;
  • Em um livro de 300 páginas: 100 páginas são história, 110 são propagandas, 70 páginas são trechos de best-sellers cujos assuntos não lhe atraem, 10 páginas são trechos de best-sellers cujos assuntos lhe atraem, e 10 páginas são trechos de um livro que um amigo seu leu;
  • Em um álbum com 60 minutos de duração: 20 minutos de música do artista que está na capa, 22 minutos de publicidade, 14 minutos de músicas de artistas cujos estilos que você não gosta, 2 minutos de músicas de artistas cujo estilo você gosta, e 2 minutos de uma música que um amigo seu ouviu.

Lembrando que todo este material foi de graça. No entanto, você recebeu o ingresso de cinema com a promessa de que não haveria trailers; ganhou o livro ouvindo que não haveria, nele trechos de outros livros; e conseguiu o álbum em um local onde os álbuns supostamente só têm musicas do artista que está na capa. Se o prospecto de que apenas um terço de qualquer mídia que você consome é realmente o que você queria consumir parece absurda para outros formatos, por que a ideia seria aceitável para redes sociais?

Mas, ainda que as big techs tenham nos guiado com um caminho traçado totalmente no mapa da merdificação, há quem esteja desenhando um "mapa da desmerdificação". As ideias propostas pela EFF, de funcionalidades básicas e interoperabilidade, já são amplamente aplicadas em uma "rede de redes", o chamado Fediverso (de "Federação" + "Universo").

Há equivalentes, no Fediverso, para basicamente todas as plataformas sociais:

  • Usuários insatisfeitos com o caminho tomado pelo Twitter migraram para o Mastodon e o Bluesky, embora haja também alternativas como MisskeyMicro.blog (ferramentas de postagens curtas são, provavelmente, o formato mais popular de rede no Fediverso);
  • Se você gosta do formato do Facebook, mas não quer seus dados sendo usados para manipulação política, nem lidar com uma enxurrada de anúncios, o Friendica pode ser uma boa solução;
  • Quem busca uma solução com o formato de fóruns, similar ao Reddit, pode se interessar pelo PieFed ou pelo Lemmy;
  • Sua prioridade é compartilhar fotos e vídeos? O PeerTube é um bom substituto para o YouTube, enquanto o PixelFed cumpre este papel em relação ao Instagram;
  • Ainda nos vídeos, se o formato "rolagem sem fim" do TikTok é a sua praia, uma boa ideia é testar o Loops.

Uma questão interessante é que, como as redes utilizam tecnologias comuns entre si, todas as ferramentas são compatíveis com outras do mesmo tipo. Ou seja: independentemente de você preferir o Lemmy ou o PieFed, por exemplo, é possível visualizar e interagir com o conteúdo publicado pelos usuários de ambas as redes.

Se o Fediverso é tão bom, por que ninguém está usando?

O Fediverso é o típico caso de produto digital cuja adoção é lenta porque não há como não ser. A primeira das chamadas "redes federadas" (imagine um Twitter no qual você pode seguir usuários do Bluesky e do Koo, ver e interagir com os posts destes usuários, e eles podem fazer o mesmo com os seus, ainda que cada um esteja usando um site/app diferente) surgiu em 2008 — ou seja: não muito depois do próprio Facebook.

A ideia é bem simples: quem controla uma rede social pode ver absolutamente todos os seus dados compartilhados nela, do vídeo de gatinho que você assistiu (incluindo por quanto tempo você viu, se pausou a reprodução alguma vez, após quantos segundos você tocou no botão "Curtir", entre incontáveis outras informações) à foto "picante" que você enviou para contatinhos (incluindo a data e a hora que a foto foi tirada, a data e a hora que ela foi enviada, quantas vezes o contatinho abriu a imagem, por quanto tempo ficou com ela aberta, qual o modelo do aparelho que você usou para tirar a foto, qual usou para enviar, qual o contatinho usou para abrir, e por aí vai), passando pela quantidade de vezes que você rolou o mouse enquanto esteve com a aba da rede social aberta (e por quanto tempo ela ficou aberta em primeiro plano, e os locais exatos aonde você levou o cursor, e os textos de todos aqueles posts que você escreveu, pensou melhor, e decidiu apagar antes de publicar).

Mas... E se o controle da rede for exercido de forma comunitária pelos próprios usuários? E se não houver uma empresa de bilhões de dólares por trás, mas sim um grupo de três ou quatro pessoas que você conhece e em quem você confia? Melhor ainda, e se tudo isso puder ficar guardado única e exclusivamente no seu computador? E se tudo isso for possível ao mesmo tempo em que você pode ver tudo o que os seus amigos publicam e interagir com eles, mesmo que não usem a mesma rede que você?

Motivo 1: falta dinheiro

Este é um dos motivos pelos quais o Fediverso ainda não é tão amplamente utilizado. As redes são alimentadas pelos dados dos usuários, ou seja: se não há coleta massiva de dados, não há venda de dados. Se não há venda de dados, não há dinheiro para investir em marketing, lobby político, ou desenvolvimento de estratégias que viciem os usuários no serviço.

E, para a maioria dos serviços do Fediverso, mesmo que houvesse dinheiro, vindo de qualquer outra fonte, ele não seria usado para estes fins. Qual garantia há disso? Simples, as redes podem escolher "desfederar" outras — grosso modo, bloquear a conexão entre usuários e o acesso do conteúdo de uma rede à outra.

Isso não é feito levianamente, uma vez que a força do Fediverso está na integração. Mas, quando há bons motivos para isso, as entidades federadas não hesitam em fazê-lo. Uma rede que seja flagrada coletando e vendendo dados de usuários seria rapidamente desfederada por virtualmente todas as outras.

Novamente: que garantia há disso? Uma boa garantia é que isso já aconteceu. O Threads, cópia do Twitter criado pela Meta, começou a testar integração com o Fediverso em 2024. Desde o primeiro momento, no entanto, ele teve a interação bloqueada por diversas redes que haviam sido criadas justamente para combater práticas abusivas típicas da Meta, como vigilância massiva, moderação ineficiente, disseminação de informações falsas e, obviamente, venda de dados pessoais.

Mas este é apenas o primeiro motivo pelo quais redes do Fediverso têm dificuldade em angariar seguidores. Certamente não é o único. Os outros dois, no entanto, são relacionados.

Motivo 2: talvez usar o Fediverso seja mais complicado do que deveria

Passemos ao segundo: é difícil — e, com frequência, chato — configurar um perfil em uma rede do Fediverso. Após achar um servidor que tenha cadastro aberto (alguns são abertos, outros não têm vagas, outros exigem preenchimento de formulários, e há ainda aqueles que só aceitam novos membros por meio de convites), é preciso inserir alguns dados básicos, e pronto.

Quer dizer, não 'tá pronto, não.

As redes sociais "mainstream" dependem — e fazem você depender — profundamente do famigerado "algoritmo". O mesmo algoritmo que leva os usuários a vídeos sobre criação de munições minutos após eles terem pesquisado algo sobre maquinário industrial ou que recomenda conteúdo sobre apenas um dos dois principais candidatos à Presidência, independentemente de o usuário buscar por conteúdos sobre um ou outro.

O pretexto para deixar o algoritmo determinar qual conteúdo exibir ao usuário é que, se isso não acontecer, o usuário não verá conteúdo algum. O problema é: se você não seguiu/adicionou/se inscreveu em nenhuma página ou perfil, e se não demonstrou nenhum interesse de forma muito explícita, por que deveria ter um feed cheio de conteúdo?

Isso explica o comportamento padrão de grande parte das redes do Fediverso: após fazer a configuração inicial do perfil, você verá um feed sem nada. Porque o correto é que o feed de um usuário que ainda não executou nenhuma ação significativa seja exatamente assim: vazio.

Meme do personagem de John Travolta em Pulp Fiction parecendo perdido e desorientado
É mais assustador estar só ou estar em um lugar cheio de gente que você não consegue encontrar?

Aqui, cabe pontuar que "grande parte das redes" não significa "todas". O Bluesky, por exemplo, tem uma aba chamada "seguindo", uma chamada "descoberta", e uma "popular com amigos". Se não há publicações novas das pessoas que você segue, a rede exibe conteúdo de uma das outras abas. E, se você não segue ninguém, ele mostra a aba "descoberta". Este, inclusive, é um dos motivos pelos quais eu decidi não usar esta rede para me conectar ao Fediverso (apesar de ter criado uma conta ainda em 2023 apenas para reservar meu nome de usuário).

Retomando: grande parte das redes do Fediverso prioriza conteúdo exibido em ordem cronológica, feito por pessoas reais seguidas pelo usuário. Leve em conta que, nos últimos dez anos, apenas três novas redes sociais ganharam popularidade e se mantiveram com grande fluxo de usuários: Kwai e TikTok, ambas direcionadas totalmente pelo algoritmo (a ponto de ser basicamente irrelevante, para a maioria dos usuários, seguir/adicionar alguém nestas plataformas); e Threads, lançado no auge do êxodo pós-venda do Twitter, e que automaticamente importa as listas "seguidores" e "seguindo" do Instagram.

Ou seja: nem usuários mais velhos, nem mais jovens, têm experiências recentes com uma rede que apresenta um feed vazio após o cadastro. A título de exemplo, a última vez que me recordo com certeza de ter visto um feed vazio em uma rede social foi ao criar minha primeira conta no Twitter, em 2007 ou 2008. Talvez, no mais tardar, quando entrei no (há muito) finado Google+, em meados de 2011. Por isso, a visão, mesmo que represente algo muito mais saudável que a internet habitual, parece estranha ou mesmo incômoda.

Motivo 3: há gente no Fediverso, mas, para encontrá-las, você precisa “aprender a ler o mapa”

Como pontuei, o terceiro problema é ligado ao segundo. Para seguir pessoas no Fediverso, você precisa encontrá-las na rede onde elas criaram suas contas, que pode ou não ser a mesma que a sua. Há diretórios que listam usuários e/ou servidores de várias redes, como o brasileiro Observatório do Fediverso e o alemão StartDir. No entanto, o processo é pouco intuitivo para o usuário médio, exacerbando o problema do feed inicial vazio.

Há, no entanto, um motivo tanto para o feed sem algoritmos quanto para a busca descentralizada. Sendo iniciativas ligadas tradicionalmente a comunidades de software livre, ativistas da área de tecnologia, e outros grupos com alto conhecimento técnico, as redes do Fediverso seguem a lógica de que é preciso entender a tecnologia que se está usando para não ser usado por ela. Deste modo, há ampla documentação disponível para quem queira aprender os meandros dessas plataformas, mas elas intencionalmente não são simplificadas em excesso.

Essa dicotomia entre simplificação para massificar e complexidade para salvaguardar a autonomia do usuário é, provavelmente, tão antiga quanto a própria comunidade de software livre. É um caso raro de uma discussão onde os lados discordam um do outro, mas ambos estão certos.

O desafio, aqui, é encontrar um ponto de equilíbrio. O usuário não deve gastar horas lendo wikis e tutoriais para fazer coisas simples como se cadastrar em uma rede, seguir pessoas e publicar conteúdos. Da mesma forma, o usuário não deve ser inserido em uma plataforma que não entende e, assim, ficar à mercê dos desenvolvedores; muito menos ser estimulado a usar qualquer tecnologia de forma acrítica — afinal de contas, grande parte do problema da merdificação só foi possível porque a imensa maioria dos usuários foi condicionada a usar a tecnologia de forma acrítica.

Onde está esse ponto de equilíbrio? O que pode (e o que deve) ser sacrificado em termos de complexidade, em nome da disseminação dessas ferramentas; e em termos de conveniência, em nome da autonomia do usuário? Não há respostas prontas. Mas a discussão para chegar a essas respostas passa — literal e figurativamente — pelo Fediverso.

Merdificação, parte 3: computadores com enshittification "de fábrica"
Se o próprio sistema operacional é pensado na lógica da merdificação, não basta se livrar de aplicativos e parar de usar sites que tenham enshittification (crédito da imagem: Colagem sobre arte de Devin Washburn)

Merdificação, parte 3: computadores com enshittification "de fábrica"

Pouco adianta despender um esforço imenso tentando evitar merdificação em sites e apps se o próprio dispositivo tem enshittification como "funcionalidade"

Merdificação, parte 1: não é impressão, tudo na internet piorou
Tudo na internet parece que está ficando uma merda. A boa notícia é que não é loucura sua. A má notícia é que tudo na internet está ficando uma merda. (Crédito da imagem: Colagem sobre arte de Devin Washburn)

Merdificação, parte 1: não é impressão, tudo na internet piorou

Também chamada "merdificação" em português, termo criado por jornalista canadense resume tendência do capitalismo de transformar tudo em... Bem, em merda