Por que sites de Tecnologia ignoram impactos sociais do ramo?
Usar IA consome água aos galões e causa a queima de combustíveis fósseis em níveis jamais vistos, mas falar disso todo dia é chato, então vamos noticiar o novo modelo de linguagem que consegue ser 0,3% melhor consumindo apenas o dobro de recursos

Por que sites de Tecnologia ignoram impactos sociais do ramo?

Vigilância massiva, IA causando suicídios, bilionários sem ética ditando o que é "inovação"... Mas, ei, 18 celulares novos foram lançados esta semana!

[AVISO DE CONTEÚDO: o texto a seguir trata de temas, como suicídio e violência de gênero, que podem ser incômodos ou ativar gatilhos de trauma em certos indivíduos; a leitura não é recomendada a pessoas com sensibilidade a estes temas]

Este artigo é o primeiro de uma série que chamarei de "basilares": conteúdos de teor mais analítico, que aprofundarão temas específicos e guiarão a cobertura do Citei. Eles complementam e aprofundam os textos "estruturais", em especial o Manifesto.

Não é como se toda a imprensa especializada em tecnologia tivesse ignorado a onda de suicídios causadas pela interação com inteligências artificiais. As ocorrências são tão frequentes que até já existe um nome para este tipo de situação: psicose induzida por IA.

O problema, na realidade, é mais profundo: ao descobrir este tipo de acontecimento, as empresas se comprometeram a melhorar seus produtos. E ficou por isso mesmo. As inteligências artificiais que levam pessoas a tirarem suas próprias vidas seguem disponíveis amplamente, sob o argumento de que suas vantagens se sobrepõem a eventuais "acidentes de percurso".

Trecho inicial da tirinha "On Fire", do quadrinista KC Green, origem do meme de um cachorro dizendo "This is fine" dentro de uma casa pegando fogo.
Crédito: KC Green

Ainda que ignoremos a gravidade das mortes, e a redução delas a um mero percalço no desenvolvimento de uma tecnologia, não podemos ignorar que estas vantagens são tão ínfimas que, três anos atrás, ninguém usava ChatGPT (ou Claude, ou Gemini, ou Copilot, ou Meta AI, ou Apple Intelligence, ou o que o valha) — e o mundo seguia tão bem (ou mal) quanto hoje. Portanto, definitivamente não se pode dizer que são tecnologias absolutamente indispensáveis.

Há ainda outra questão. Mesmo nos veículos que noticiaram os casos de desvivência estimulada pelo convívio com chatbots, esta foi apenas mais uma matéria sobre o assunto. Tão significativo, para estas publicações, quanto o lançamento do novo modelo de linguagem, ou que agora três novas fabricantes de smartphones vão incluir o aplicativo do tal chatbot entre os pré-instalados (e, habitualmente, "indesinstaláveis") nos seus aparelhos. É irrelevante que isso implique dar potenciais máquinas de suicídio nas mãos de milhões de novas pessoas sem parar um segundo sequer para pensar se isso é mesmo uma boa ideia.

Salvo os estruturais (Manifesto e as regras de conduta), necessários para levar o site ao ar, este é o primeiro material que escrevo para o Citei. Não por acaso: inicialmente, o intuito é formar as bases ideológicas (e todo o mundo tem ideologia, importante pontuar) sobre as quais a cobertura dos temas será feita. Sem isso, não é possível iniciar, de forma transparente, o noticiário factual, cotidiano.

Como encaixar senso crítico nas notícias do dia-a-dia?

Não estou dizendo que toda matéria sobre a Meta irá qualificá-la como a empresa "que percebeu que seus produtos causavam depressão e ansiedade em adolescentes e usou isso para aumentar os lucros", ou "cujo dono disse que 'a agressividade masculina é boa para os negócios'", ou "envolvida no abuso e exploração de vieses cognitivos para manipular as eleições que determinam quem será a pessoa mais poderosa do planeta". Mas, quando pertinente, é indispensável relembrar ao menos alguns destes fatos — ou outros, uma vez que estamos falando de uma megacorporação cuja origem era um site para dizer qual, entre duas mulheres, era mais "pegável". E a filosofia por trás da companhia mudou virtualmente nada desde então, o que significa que há dezenas de situações em que vai haver alguma crítica pertinente.

Cabe pontuar aqui uma questão de formato. Mencionar questões assim ostensivamente, no meio do texto, é maçante, especialmente se for feito de maneira indiscriminada. Há diversos modos de trazer esses lembretes, como em "matérias relacionadas", "leia mais" e coisas do tipo. Estas ferramentas são amplamente usadas em qualquer site de notícias, não apenas os de Tecnologia, e têm justamente o efeito contrário: "quebram" o ritmo de leitura, permitindo "pausas" entre blocos extensos de texto, e são, exatamente por este motivo, chamadas de "respiros". A ideia não é forçar o leitor a uma profunda análise sócio-política do mundo cada vez que formos noticiar uma funcionalidade nova no WhatsApp, e sim deixar aquele elemento disponível para quem tenha interesse nele.

Abandonar o otimismo cego da imprensa de Tecnologia é importante — e positivo

https://www.instagram.com/reel/DMD9IuzPSXp/

Trago estes pontos, e da forma como foram levantados, não para forçar o leitor a qualquer posicionamento — embora, sim, um pouco de proselitismo acontecerá de quando em quando. Trago-os porque, ainda que a ignorância pareça uma bênção, ela não é uma e, já que estou lançando mão de frases feitas, é importante lembrar que quem não se movimenta, não sente as correntes que lhe prendem.

Se a minha ação pode levar ao meu público informações novas (ou relembrar velhas informações já esquecidas), para que o próprio público forme suas opiniões, é isso que vou fazer. Primeiramente, porque o otimismo cego da mídia especializada já é, ainda que superficialmente velado, um posicionamento: o de que é válido ignorar, por exemplo, que o remédio que você compra por R$ 20 ao informar o CPF na farmácia nunca custou os R$ 130 que a etiqueta informa; ele sempre foi R$ 20, mas a impressão do desconto lhe faz fornecer seus dados de bom grado — e sem saber para que estes dados serão usados (uma dica: se não fossem importantes, não seriam vendidos a preço de ouro). Em segundo lugar, porque informar é o dever fundamental da imprensa, e desinformar por omissão também é uma violação deste dever.

Para quem só quer saber o último celular anunciado pela sua fabricante favorita: não se preocupe, a notícia estará aqui. Mesmo que o aplicativo da IA mais odiosa venha como brinde compulsório nele, inclusive. A diferença é que, agora, você vai lembrar que o tal brinde é um presente de grego, não uma benesse tecnológica desprovida de segundas (e terceiras, e quartas, e vigésimas-oitavas) intenções.

Merdificação, parte 3: computadores com enshittification "de fábrica"
Se o próprio sistema operacional é pensado na lógica da merdificação, não basta se livrar de aplicativos e parar de usar sites que tenham enshittification (crédito da imagem: Colagem sobre arte de Devin Washburn)

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Pouco adianta despender um esforço imenso tentando evitar merdificação em sites e apps se o próprio dispositivo tem enshittification como "funcionalidade"

Merdificação, parte 1: não é impressão, tudo na internet piorou
Tudo na internet parece que está ficando uma merda. A boa notícia é que não é loucura sua. A má notícia é que tudo na internet está ficando uma merda. (Crédito da imagem: Colagem sobre arte de Devin Washburn)

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Também chamada "merdificação" em português, termo criado por jornalista canadense resume tendência do capitalismo de transformar tudo em... Bem, em merda