Merdificação, parte 2: o enshittification em apps e redes sociais
Conceito, do inglês "enshittification", define a tendência de produtos e serviços — digitais ou não — piorarem continuamente, prejudicando usuários
Esta é a segunda parte do especial sobre enshittification, ou "merdificação". Você pode conferir, nos links a seguir, o primeiro, o terceiro e o quarto textos.
Na matéria anterior, vimos como produtos e serviços — especialmente os digitais, mas não somente — têm a tendência de gradualmente piorar, a ponto de seu uso se tornar inconveniente, irritante, ou mesmo prejudicial. No entanto, ao contrário do esperado, em grande parte dos casos não deixamos de usá-los — nem migrando para concorrentes, nem cessando o uso de produtos/serviços daquele tipo.
Em linhas gerais, este problema opera na conhecida lógica do "sapo na panela". A analogia é de que, ao colocar um sapo vivo em uma panela de água fervente, ele imediatamente pulará para fora, buscando se salvar. No entanto, sendo um animal de sangue frio, ele não percebe mudanças graduais de temperatura. Portanto, ao ser colocado em uma panela de água fria, que é então levada ao fogo, o sapo permanecerá dentro dela e morrerá escaldado sem tentar fugir.
Adicionemos, porém, um elemento novo à metáfora tradicional: e se tudo o que o Sol toca for uma grande sucessão de panelas de água fervente? Mesmo que nosso sapo hipotético perceba o aquecimento gradual, o que poderá fazer se toda tentativa de escapar o leva para um ambiente igual ou pior?.
E eu com isso?
Por que essa matéria é importante:
A merdificação não é uma coincidência ou um acaso, e sim um elemento fundamental do capitalismo de plataforma. Entender como esse modelo de negócios funciona é o primeiro passo para se libertar das empresas que o adotam — e evitar ser vítima de outras no futuro.
Como a merdificação/enshittification afeta o cotidiano: apps e redes sociais
Esta é a situação atual de grande parte dos produtos e serviços digitais, e ela tem se expandido intensamente para itens offline. Nós chegamos a um contexto em que somos todos sapos buscando, desesperadamente, pousar em uma panela menos fervente que aquela da qual acabamos de pular. O problema é que estamos à mercê de pessoas que querem muito montar um gigantesco estoque de sapos cozidos.
"Eu não me importo de permanecer usando os serviços que já me acostumei, ou comprando sempre produtos de uma marca só", você pode dizer.
E, de fato, é fácil dizer isso quando você não teve sua conta excluída, sem explicação, de um desses serviços, lhe impedindo de acessar toda a biblioteca de itens que você "comprou" — ou mesmo lhe impedindo de revender o produto que acessava esta conta, pois o próprio aparelho foi bloqueado.
É importante pontuar que "comprar" está entre aspas porque, hoje em dia, itens digitais não são vendidos ou comprados: você adquire meramente uma licença para uso deles. Esta licença pode ser revogada ou alterada unilateralmente, conforme desejo das empresas que as comercializam.
Mas ok, suponhamos que a ideia de que "se você não fizer nada errado, não será punido" seja verdade (spoiler: não é [1], como mostram [2] sucessivos casos [3] que se acumulam [4] na Justiça de diversos estados [5] — incluindo um dos mais emblemáticos exemplos de como o mau jornalismo pode destruir a vida de pessoas), e que você não veja problemas em ter funcionalidades removidas de produtos que você comprou, em parte, por causa destas exatas funcionalidades. Ainda assim, a merdificação prejudica o seu cotidiano, tornando o uso de tecnologias cada vez mais inconveniente.
Exemplos de merdificação/enshittification
A seguir, trago seis "estudos de caso" sobre enshittification. Inicialmente, podem parecer muitos exemplos, mas, na prática, é uma amostra ínfima do quão onipresente é o problema. Ao ler, certamente você vai perceber ou que já passou pela mesma situação, ou que já vivenciou experiências similares em outros produtos/serviços.
Exemplo 1: compartilhamento de itinerários na Uber

Originalmente, o uso desta função era extremamente simples: bastava selecionar a opção "compartilhar", após o início da corrida, e você podia enviar um link para que uma pessoa acompanhasse o trajeto, pelo método que preferisse. Era possível usar WhatsApp, e-mail, SMS, ou qualquer outra ferramenta de comunicação. Atualmente, o processo exige:
- Selecionar o botão "detalhes", na tela que aparece após o início da corrida;
- Tocar no botão de compartilhar;
- Visualizar um pop-up pedindo acesso à sua agenda de contatos;
- Recusar a concessão do acesso;
- Visualizar uma mensagem avisando que é necessário autorizar a Uber a ver seus contatos para poder compartilhar o link da corrida;
- Rejeitar novamente a concessão do acesso;
- Finalmente visualizar, após seis etapas, o menu de compartilhamento, que antes era visível com apenas um passo.
Este processo já seria ruim o suficiente se fornecesse informações de forma transparente aos usuários. No entanto, nos passos 3 e 5, em momento algum é informado que é possível compartilhar o trajeto sem dar à Uber permissão de ver sua agenda de contatos.
Além disso, a página de suporte do aplicativo que descreve a funcionalidade mostra apenas como usar o método que força o usuário a compartilhar os contatos com a Uber. O site sequer menciona a existência do processo mais longo, mas que não dá seus dados gratuitamente à empresa.
Esta lógica de ocultar informações importantes para que os usuários tomem decisões plenamente conscientes é característica fundamental da merdificação.
Todos conhecem a expressão mais clássica disso, em produtos e serviços digitais, que é exibir uma caixa "li e aceito os termos e condições" com links para estes documentos que, se abertos, revelam textos longuíssimos, com linguajar técnico e termos genéricos ("nossos parceiros podem usar a telemetria fornecida para otimizar ofertas personalizadas" é apenas uma maneira de dizer "vendemos seus dados para empresas saberem tudo o que você faz, e cobrarem mais caro de você") — isso se levarem a algum lugar: em mais de uma ocasião, cliquei em um link destes e fui encaminhada a uma mensagem de "página não encontrada". No entanto, há diversas outras formas de coagir o usuário.
Exemplo 2: Moovit
As imagens acima mostram o processo de "onboarding", como é chamado o primeiro acesso do usuário, do aplicativo Moovit, que fornece horários e rotas de transporte público. Pode parecer algo banal, mas, só nesta situação, já é possível apontar quase uma dezena de ocorrências de merdificação.
A primeira informação apresentada é um texto com links para os termos de uso e política de privacidade do aplicativo. Embora, a priori, pareçam ser indicações positivas, a maneira como são colocadas visualmente tem problemas, em especial na comparação com outros elementos da tela — especialmente o botão "começar".
Logo abaixo, uma frase genérica: o Moovit informa que usa seus dados de localização quando você não está usando o aplicativo para "personalizar os serviços". Não é explicado o que será personalizado, tampouco como essa personalização ocorrerá, e, muito menos, por que é necessário acesso a informações constantes sobre sua localização.
Em seguida, um trecho estranhamente específico: "você concorda que quaisquer direitos de carbono resultantes do seu uso do serviço serão atribuídos ao Moovit para o desenvolvimento de iniciativas relacionadas a carbono e sustentabilidade". Voltaremos a isso (um bom tanto) mais adiante.
Por fim, é apresentada uma ilusão de escolha: "estas preferências podem ser editadas nas configurações de privacidade".
Passemos à segunda tela, que aparece após autorizar o acesso ao GPS (por padrão, apenas durante o uso do app, ou apenas durante aquele uso — smartphones mais recentes permitem acesso à localização em segundo plano apenas em um momento posterior).
"Tenha atualizações ao vivo! Permita as notificações para receber alertas de trânsito em tempo real, atualizações de serviço e mais".
Novamente, nada excessivo, correto? Errado.
Primeiramente, porque o "e mais" esconde muitas coisas. Ao autorizar o envio de notificações, o esperado é que o Moovit exiba informações úteis, como a proximidade de um ônibus que você costuma pegar sempre no mesmo horário ou que está chegando a estação de metrô onde você deve descer. E, de fato, estas notificações existem. Mas existem, também, notificações "convidando" a "testar" a versão paga do serviço, insistindo para que você compartilhe sua localização de forma contínua, e mesmo propagandas de anunciantes que tenham acesso aos seus dados — mais sobre isso logo a seguir.
Antes, vamos ao segundo elemento problemático desta página. O botão "permitir" é identificado nitidamente como um botão, em uma cor de alto contraste com o fundo. O botão "agora não", por outro lado, é apresentado apenas como texto.
Se você reconhecer que o botão-que-não-parece-um-botão é um botão e tocá-lo, é levado à terceira tela. Aqui, mais problemas.
"Saiba onde está sua linha, agora! Chega de adivinhar! Siga a localização ao vivo de sua linha conforme ela se move no mapa", diz essa nova oferta maravilhosa. O que não está escrito aqui (e em lugar algum desta tela) é que esta opção exige a versão paga do Moovit, o que é levemente insinuado (mas não explicitamente informado) pelo botão "experimente grátis".
Novamente, é necessário tocar em um botão-que-não-parece-botão para avançar à próxima parte sem se comprometer com a assinatura de R$ XX. Quanto é R$ XX? Boa pergunta. Nem mesmo no site do serviço existe esta informação. Nas lojas de aplicativos, é informado o valor de R$ 2,99 para o "passe semanal", com a assinatura anual chegando a R$ 53,90. O pagamento por mês custa R$ 11.
Mas, como você já entendeu como o esquema opera, sabe que o recomendado é escolher o botão-que-não-parece-botão. O que nos leva à quarta tela. Se você achava que seria a última, já informo que não. Mas não vamos colocar o ônibus na frente dos passageiros a carroça na frente dos bois.
"Personalização — para lhe fornecer uma experiência personaliada, Moovit e seus parceiros podem agora usar seus dados para lhe exibir anúncios que são relevantes para você no Moovit e em outros aplicativos e sites". Mais uma mensagem que precisa ser destrinchada:
- Primeiro: o que é "experiência personalizada"? Anúncios que são apresentados com base em uma (suposta) chance mais significativa de compra não são uma experiência personalizada, são apenas espionagem. Afinal de contas, não é porque, em algum momento aleatório, você falou de cumbucas, que você pretende comprar cumbucas;
- Segundo: quem são os parceiros do Moovit? Já que tem múltiplos parceiros, o aplicativo ao menos realiza sua testagem de ISTs com frequência?
- Terceiro: "seus dados"... Quais dados? Minha localização? Os locais onde eu costumo embarcar e descer no transporte público? Quais linhas eu mais uso? Que destinos eu pesquiso no aplicativo? O que eu falo enquanto uso o Moovit?
- Quarto: "no Moovit e em outros aplicativos e sites" — calma lá, meus dados em geral vão "personalizar" anúncios exibidos no Moovit, em outros aplicativos e sites? Meus dados do Moovit, de outros aplicativos e sites, que serão usados para exibir anúncios "personalizados" no Moovit? As duas coisas juntas e misturadas?
- E, principalmente, quinto: eu tenho opção? Porque são exibidas apenas duas alternativas: o botão-que-obviamente-é-botão "ok, continuar" e o botão-que-não-parece-botão "saber mais".
Só por desencargo de consciência, cliquemos no segundo.
"Gerencie suas preferências de anúncios — você pode escolher ver anúncios personalizados que são relevantes para você no aplicativo, para uma experiência mais personalizada de anúncios. De outro modo, você continuará vendo anúncios, mas eles podem não ser relevantes para os seus interesses". Ainda não temos informações sobre o que exatamente é uma experiência personalizada de anúncios (se eu checar, pelo Moovit, qual linha de ônibus passa perto de uma maternidade, vou começar a receber propagandas de fraldas em vários apps; ou se eu checar, em outro app, o preço de uma pílula do dia seguinte, o Moovit vai começar a despretenciosamente me mostrar, na época que começariam as consultas de pré-natal, linhas de ônibus que passam perto das maternidades?); sobre os parceiros do Moovit; quais são os dados usados; e se aquele trecho "no Moovit e em outros aplicativos e sites" diz respeito, afinal de contas, dos dados do Moovit e outros aplicativos e site ou das propagandas exibidas no Moovit e em outros aplicativos e sites.
Uma coisa, no entanto, que é revelado — a muito custo — por esta tela, é que, sim, você tem alternativa! O botão-obviamente-botão continua com o mesmo "ok, continuar" de antes, mas o "botão enrustido" mudou de texto para "manter anúncios menos relevantes".
Ou seja: esta opção sempre existiu, mas, apesar de haver a informação, logo ao abrir o aplicativo, que seus dados serão usados, é necessário chegar à quarta tela e tocar em um botão — que não parece ser um botão — com a descrição "saber mais" (ou seja, que não indica que, ao tocar nele, você receberá uma possibilidade adicional de escolha), para, só então, descobrir que é possível recusar o compartilhamento de informações.
E, a esta altura, depois de tantas táticas escusas para lhe fazer escolher determinadas opções, de tanta linguagem genérica, e de tanto esforço para ocultar esta opção, dá para confiar que escolhê-la vai realmente fazer com que as empresas respeitem seu desejo por privacidade? Surpreendendo um total de zero pessoas, a resposta é "não".
Exemplo 3: Happn
Em seguida, temos o caso do Happn. Assim como no Moovit, a situação ocorre já no onboarding.
E também, novamente, a prática acontece em mais de um momento: da tela inicial, onde o usuário escolhe como realizar o cadastro ou login, à apresentação (ou ocultação) dos termos de uso do serviço e das "personalizações" que incluem "compartilhar com parceiros" os dados dos usuários.
No primeiro momento, ao abrir o aplicativo, o botão "conectar com Google" é apresentado em uma cor muito mais destacada, um branco sólido, sobre um fundo escuro. O botão "outras opções", por sua vez, é cinza-escuro e translúcido — ou seja, fica ainda mais escuro, sobre o fundo preto.
Mesmo que o usuário escolha "outras opções", no entanto, a aba que aparece mostra, novamente, o botão "conectar com Google" — justamente a alternativa que já havia sido recusada — e, novamente, com destaque em relação ao fundo. O botão cinza-escuro oferece a outra alternativa de cadastro, usando o número do celular.
Aqui, a questão é que, no fim das contas, há apenas duas alternativas: aparecendo em 50% dos botões, cadastrar conectando à conta Google — que dá acesso a muito mais dados do usuário — ou, aparecendo em 25% dos botões, e exigindo uma interação adicional para ser exibida, cadastrar usando o número de telefone. A opção de cadastro pelo telefone poderia ser exibida já na primeira tela, sem exigir alterações no design da página inicial. A ideia de escondê-la por trás de um menu com "mais alternativas" — que, aberto, apresenta apenas a alternativa já recusada na tela anterior e uma nova — é, na realidade, uma forma de direcionar o usuário à ação que o aplicativo quer que o usuário execute, em detrimento da ação que o usuário quer executar.
Ainda que o problema do contraste apareça também no momento anterior, é na segunda ocorrência que ele se mostra ainda mais significativo. Ao selecionar a opção de fazer o cadastro pelo número de telefone, o usuário é levado a uma tela com os termos de serviço e um botão "aceitar condições", aproximidamente no mesmo local que os botões das telas anteriores.
Aceitar "as condições exibidas" é necessário para uso do aplicativo, mas, na realidade, mesmo os termos genéricos e técnicos empregados nesta tela são apenas parte da história: abaixo do botão, em uma fonte menor, são indicados links para os verdadeiros termos de serviço, a política de privacidade, e a política de cookies do aplicativo. Estes mesmos links estão indicados, da mesma forma (porém em cor inversa), na primeira tela do aplicativo.
Mas, ok, se você deseja usar o Happn, não tem escolha a não ser aceitar estes termos. Chegamos ao fim do problema, certo? Não mesmo.
A tela seguinte exibe mais texto, desta vez sem um título exato, apenas com o logotipo do aplicativo. A ínfima parcela de usuários que lê esta parte entende que é sobre venda de dados — ou "uso de cookies ou tecnologias similares para armazenar, acessar e processar dados pessoais" pela empresa que desenvolve o aplicativo e seus "11 parceiros". Eu sou adepta da não-monogamia, mas uma relação com 12 parceiros parece uma complicação descomunal — imagine a dificuldade para comemorar o Dia dos Namorados.
Mas, hey, temos um avanço em relação ao Moovit, por exemplo: é possível saber quais são estes parceiros! Para isso, no entanto, é necessário abrir um link, que leva a uma página externa. Continuando a análise da tela, o botão "aceitar e fechar" é preto, sobre um fundo branco, mais ou menos na mesma localização que os botões anteriores. Em cinza claro, logo acima dele, um botão "saber mais", que também leva a uma página externa.
No entanto, no topo da tela — ou seja, no local oposto à área onde estiveram todos os botões até agora — há uma opção "continuar sem concordar". Esta opção está em texto plano, e sem indicativos óbvios de que se trata de um botão, como o "contorno" em cor (nem sempre) distinta usado por todos os botões (sete, contando com os desta tela) exibidos até o momento, e a posição na interface. Ele também está em fonte menor que as usadas no texto regular e nos botões. Os únicos elementos que trazem algum destaque são o texto em negrito, caixa alta e sublinhado, mas, mesmo estes elementos chegam a ser dúbios. Começando com o primeiro: o texto em negrito é usado, nas telas anteriores, para indicar links externos, e não botões — igualmente, a seta apresentada nesta parte, idêntica à do botão "saber mais" no outro extremo da tela, referencia um elemento da interface que, se selecionado, também abre um link externamente. Deste modo, restam apenas a caixa alta e o sublinhado como indicadores de qualquer destaque, contra:
- A falta de contorno que indique se tratar de um botão;
- O texto em fonte menor;
- A seta igual à de um botão que leva a uma página externa, e não a uma ação realizada dentro do próprio aplicativo;
- O negrito igual ao de textos cujo negrito indica serem links para páginas externas, e não ações realizadas dentro do próprio aplicativo.
Ou seja: as ações que o usuário pode tomar caso queira resguardar minimamente suas informações pessoais — cadastrar-se usando o número de telefone e usar o aplicativo sem fornecer dados para os "11 parceiros" — são disfarçadas tanto quanto possível. As ações que o usuário pode tomar para ter informações que permitam fazer uma escolha consciente — ler os termos de serviço, a política de privacidade, e a política de cookies, e descobrir quais são os "11 parceiros" para quem o aplicativo vende seus dados — também são disfarçadas tanto quanto possível. Por outro lado, as ações que o aplicativo deseja que o usuário tome para, sem refletir a respeito, entregar estes dados — fazer o cadastro com a conta Google, aceitar os termos de uso, e autorizar a venda de suas informações pessoais — são destacadas.
Exemplo 4: Minha Claro
Embora o Moovit cheque, de quando em quando, se você só por acaso não acabou mudando de ideia em relação a fornecer para ele todas as suas informações pessoais, sua localização, e sua área de notificações; e o Uber exija que você passe por toda uma via crucis sempre que quiser compartilhar o trajeto de uma viagem; há algum limite na insistência destes aplicativos. Não pode-se dizer exatamente o mesmo do Minha Claro, usado para gerenciar contas da operadora de telefonia móvel (e internet, e TV por assinatura). O problema começa no onboarding e continua — por motivos similares, inclusive — ao longo de todos os usos do app.
Isso porque o Minha Claro repetidamente ignora as escolhas do usuário e solicita permissões que já foram negadas, ou exibe anúncios que foram dispensados. Este último não seria nada muito diferente das publicidades repetidas às quais somos expostos internet afora, não fosse um detalhe: há um botão "X", tradicional, para fechar a propaganda e, também, um botão "não ver mais", que, supostamente, deveria garantir que, pelo menos, tentariam lhe vender outra coisa. Não é o que acontece.
Mas, novamente, me precipito. Vamos descrever, sequencialmente, as etapas que aparecem no vídeo.
Ao abrir o aplicativo pela primeira vez, é exibida uma lista de "explicações" sobre as solicitações que serão feitas. Considerando a lista relativamente longa, dá até para perdoar o já batido "melhorar a sua experiência" mostrado na introdução. A ver:
- A sequência começa bem, com um "login automático" que dispensa explicações (felizmente, porque a explicação dada tem pouca utilidade);
- Em seguida, a coisa fica um pouco confusa: "envio de mensagens de texto e multimídia por questões de segurança para validar o meu número com disparo de token". Por que seria necessário enviar mensagens para validar um número, quando qualquer sistema decente de autenticação em dois fatores se vira muito bem apenas recebendo mensagens? Por que é necessário o envio, em especial, de mensagens multimídia? O que é "disparo de token", e quais são as "questões de segurança"?
- Nas chamadas telefônicas, você autoriza a operadora a vasculhar cada ligação que você faz — além do fato já óbvio de que eles têm acesso às suas ligações, afinal, o número de telefone é da própria operadora — para, tão somente nos casos em que você contatar o call center, a empresa lhe "recomendar o atendimento digital com a melhor solução". Afinal de contas, se você está se dispondo a ligar para a central e esperar minutos — ou horas — por um atendimento, de forma alguma vai fazer isso após ter tentado resolver as coisas por outro método que não envolva ser transferido meia dúzia (ou mais) de vezes e ouvir incessantemente a música da fila de espera, correto?
- No armazenamento móvel, a luz amarela acende. Tanto no Android quanto no iOS, aplicativos têm um "armazenamento próprio", que o próprio aplicativo (e somente ele) pode, por padrão, acessar. Isto já deveria ser mais que suficiente para guardar "arquivos que registram parâmetros de rede e qualidade de serviços da sua internet móvel, para contribuir com indicadores da Anatel". A não ser que os desenvolvedores de aplicativos que recebem um salário para desenvolverem aplicativos não conheçam as boas práticas do, bem, desenvolvimento de aplicativos;
- Mais uma empresa querendo saber onde você está o tempo inteiro, mesmo se o aplicativo estiver fechado. Aqui, o pretexto é "monitorar a qualidade da sua internet e [novamente] contribuir com os indicadores da Anatel". Porque, obviamente, a entidade mais confiável para coletar dados e entregá-los à autoridade reguladora é a empresa que se beneficia de que dados coletados e entregues à entidade reguladora pareçam ser os melhores possíveis, mesmo que não o sejam de verdade;
- Sobreposição de tela: não vou ser injusta, é difícil explicar em termos melhores que eles estão querendo que você autorize o aplicativo a aparecer por cima de outros a qualquer momento. Isso é, segundo a empresa, necessário para "funcionalidades que requerem ação imediata no app". Quais são essas funcionalidades, por que elas precisam de "ação imediata", qual seria esta ação, e como diabos o aplicativo vai saber quando aparecer? Nah, ninguém precisa responder isso, não é importante;
- O item seguinte é ainda melhor: a operadora que forneceu o seu número de telefone quer saber qual é seu número de telefone. O motivo? "Proporcionar uma melhor experiência digital para você". O que isso significa? Parece ser irrelevante — ao menos, não é relevante o suficiente para merecer uma explicação por parte da empresa;
- Logo em seguida, um item similar, mas com diferenças cruciais: aqui, a experiência não é "melhor", mas sim "personalizada". O que eles entendem por "personalizada"? "Ofertas, conteúdos e atendimento digital" (sem explicar de que são as ofertas, quais são os conteúdos, e em que contexto acontece o atendimento digital). Ah, claro: isso tudo é personalizado pelos "parceiros" (mais uma vez, viva a não-monogamia!) e "fornecedores" (sabe-se lá de quê), portanto, obviamente, eles terão acesso aos seus dados;
- Por fim, o detector de spam (a ironia risível do termo ficará evidente logo a seguir) precisa de uma permissão (sabe-se lá qual) que, jura a empresa, "é exclusiva para bloquear chamadas não desejadas" (me pergunto se bloqueiam chamadas não desejadas da própria Claro). "Não acessamos, armazenamos ou compartilhamos informações pessoais sem o seu consentimento", adicionam. Porque, obviamente, os itens anteriores deixam muito óbvio que a operadora não solicita nenhuma informação excessiva, não usa linguagem vaga, e adota exclusivamente comportamentos 100% confiáveis.
Parou por aí? Claro. E eu sou o Batman.
Agora é que começa a brincadeira. O aplicativo solicita nada menos que cinco permissões seguidas do sistema:
- Localização;
- Registro de chamadas;
- Encontrar, conectar-se a, e determinar a posição de dispositivos próximos;
- Enviar notificações;
- Fazer e gerenciar chamadas telefônicas.
Agora acabou, né? Claro. E eu sou a Mulher Maravilha.
Em seguida, mais solicitações de permissões, dessa vez em pop-ups do próprio aplicativo — o que indica que são permissões avançadas do sistema. São elas:
- Filtro de chamadas: Android e iPhone têm opções nativas para esta função, além de haver aplicativos especializados, como o Truecaller e outros;
- Compartilhar número de telefone: com a Claro? Certamente que não, eles já sabem o seu número! A permissão é para fornecê-lo a "parceiros" para "melhorar a sua experiência de uso" (leia-se: "receber ligação às 21:30 de uma terça-feira, oferecendo empréstimo na conta de luz");
- Redirecionamento de chamadas: é basicamente um segundo filtro de ligações que, de acordo com o aplicativo, identifica "números suspeitos" para "aumentar sua segurança e melhorar a experiência nas ligações". Nós vivemos em um país em que, a cada mês, são feitas 10 bilhões de ligações automatizadas — cerca de 50 por habitante — e onde a agência reguladora decidiu cancelar a identificação obrigatória de ligações comerciais porque, basicamente, ninguém respeitava — o equivalente a descriminalizar os assaltos porque assaltantes não deixaram de subtrair bens de pessoas mediante violência ou grave ameaça. Além disso, se o objetivo é ter uma ferramenta ineficiente para bloquear robocalls, a pessoa pode simplesmente se cadastrar no sistema Não Me Perturbe;
- Aplicação sempre em segundo plano: aqui, ao menos eles avisam que isso pode aumentar o consumo de bateria. Mas por que querem deixar o app rodando constantemente no seu celular? Aparentemente, não há necessidade de explicar detalhes insignificantes;
- Sobreposição de tela: era de se imaginar que, no pop-up pedindo autorização para isso, eles se dessem o trabalho de explicar o motivo da solicitação, correto? Errado. A não ser que você considere "para melhor experiência" uma justificativa completa.
Finalmente terminou, correto? Claro. E eu sou o Aquaman. A essa altura, realmente gostaria de usar exemplos da Marvel, mas provavelmente receberia um processo da Disney.
Quando você, depois de encarar uma dezena de pop-ups pedindo permissões mal-explicadas, finalmente consegue abrir o aplicativo pela primeira vez, vai conseguir ver as informações do seu plano, certo? Tente novamente. A primeira coisa que aparece é uma propaganda. Lembra que, lá em cima, mencionei que eles ignoram as suas escolhas sobre propagandas? Pois é, selecione "Não ver mais" aqui e veja a magia (não) acontecer.
Pois bem, você conferiu que sua franquia de internet não acabou e fechou o aplicativo. Mas lembrou que precisava ver, também, a data de fechamento da fatura, então abre novamente o Minha Claro. You're in for a treat.
Começamos com, novamente, a propaganda. Sim, aquela que você havia acabado de pedir para "não ver mais". Pode selecionar esta opção de novo, sem medo. Eu também faço isso, afinal, a esperança é a única última que morre.
Em seguida, ao menos chega uma perturbação nova: um pop-up mostrando que "o Minha Claro mudou". Os fatos de que o app existe, para clientes móveis, há dois anos, e de que ele pode ser usado também por clientes residenciais há mais de um ano, parecem irrelevantes. Mas, novamente: ao menos é uma perturbação que não havia aparecido ainda.
Você fecha o pop-up e pode, finalmente, usar o aplicativo, certo? A essa altura, você realmente acha que as coisas vão ser simples assim? Primeiro, outro pedido de permissão de dentro do app: localização em segundo plano — mesmo que, na ocasião anterior, você não tenha autorizado sequer a localização durante o uso do app. Ah, e, quando você recusar, vai ver de novo o pop-up do sistema solicitando o acesso à localização. E o de encontrar, conectar a e localizar dispositivos próximos. E um, novo, pedindo para autorizar o aplicativo a rodar em segundo plano.
Ok, você viu a data de vencimento da fatura e fechou o aplicativo novamente. Algum tempo depois, fica em dúvida se a franquia restante era toda para uso livre, ou se tinha alguma parte reservada apenas a redes como Instagram e Facebook. Pois bem, aperte os cintos.
De novo, a propaganda. Aquela mesma que você já rejeitou duas vezes. Espero que você esteja se apegando a ela, porque continuará vendo-a toda vez que abrir o aplicativo. Dessa vez, após 11 mil caracteres descrevendo um único aplicativo, por increça que parível, é só isso.
Dessa vez.
Em momentos aleatórios, o Minha Claro pedirá, novamente, permissões que você já negou — seja com pop-ups do sistema, seja com pop-ups dentro do app. A única maneira de garantir que eles não aparecerão mais é aceitando as permissões.
Fugir de apps "merdificados" não basta: a merdificação é parte dos sistemas operacionais
Sugestões como "é só não usar estes aplicativos", é importante pontuar, não bastam. Para simplificar, levarei em conta apenas os exemplos dados até agora, e considerarei apenas o cenário brasileiro.
Há, basicamente, um duopólio entre Uber e 99 nos aplicativos de transporte. Na telefonia móvel, a situação é similar, com Claro, Tim e Vivo comandando virtualmente todo o mercado. Neste caso, inclusive, há o adicional de que, em centenas de municípios, o serviço é oferecido por apenas uma ou duas destas operadoras. Em ambos os casos, usar outro serviço é inviável.
O Moovit, por sua vez, apresenta uma situação peculiar. O serviço oferecido pelo aplicativo é público — alimentado, inclusive, pelas bases de dados dos próprios sistemas de transporte coletivo.
Em muitas cidades, os órgãos estatais até disponibilizam apps e serviços próprios com informações similares, mas, como cada cidade tem a própria solução, não existe uniformidade na experiência de uso. Deste modo, se um usuário se muda ou visita outro município, precisa: 1) descobrir se há um site ou aplicativo do poder público; 2) acessá-lo ou instalá-lo; e 3) aprender a usá-lo.
Além disso, nem todos estes serviços apresentam as mesmas informações. Deste modo, o Moovit acaba tornando-se mais prático para a maioria dos usuários, exercendo um "monopólio de conveniência".
Outro problema é que, em troca de oferecer um serviço de utilidade pública, com base em informações públicas, o aplicativo demanda que os usuários entreguem dados privados, para fins que não são explicitados. Além disso, usa táticas de ética questionável para induzir os usuários a aceitar esta troca, e chega a omitir a informação de que é possível ter o mesmo serviço com o fornecimento de muito menos informações.
Alguns talvez tentem pontuar que, por ser um produto "supérfluo", o Happn poderia se isentar de qualquer obrigação ética em fornecer um serviço que não abuse dos usuários. Este argumento é, no mínimo, debatível: serviços virtuais para relacionamentos existem desde — pasmem — os anos 1950. Bem antes disso, esta função já era cumprida pelos tradicionais "classificados amorosos" em jornais e revistas, que atravessaram décadas e, embora menos comuns, existem até hoje. A busca de companhia para um relacionamento — ou apenas para uma noite — não é, portanto, algo novo, tampouco banal.
Mesmo ignorando esta questão, é possível analisar o problema pela lógica comparativa. Aplicativos similares, como Grindr e Tinder, têm políticas de privacidade igualmente problemáticas. Portanto, a questão acaba se resumindo a: usuários não têm opção exceto o uso de plataformas que exploram seus dados pessoais com fins, no mínimo, questionáveis.
E isso é só a ponta do iceberg. Considerando que vivemos em uma sociedade majoritariamente monogâmica, o mais habitual é que uma pessoa, ao encontrar um relacionamento, deixe de usar estes serviços. Consequentemente, você deixa de visualizar anúncios ou, se tiver optado pela modalidade paga existente em todas estas ferramentas, cancela a assinatura.
Por isso, as empresas têm um forte incentivo para tanto projetar os aplicativos de um modo que se tornem altamente viciantes quanto desenvolver estratégias que lhe tornem dependente do serviço pelo máximo de tempo possível. Parece irônico que plataformas de relacionamento atuem, na prática, para lhe manter fora de um relacionamento, mas é exatamente isso que a merdificação causa.
No próximo texto, mostrarei que o problema é, na verdade, ainda maior. Ainda que fosse possível encontrar apps, sites e serviços "não-merdificados" de forma consistente, os próprios dispositivos que usamos têm a merdificação como parte fundamental do seu funcionamento. Assim, ao usar seu computador ou smartphone para basicamente qualquer diversos fim, o risco de enfrentar processos merdificados é, em linhas gerais, inescapável. Para que você não fique na expectativa, todos os textos do especial foram publicados simultaneamente, então basta clicar aqui para acessar o próximo conteúdo!










