Merdificação, parte 1: não é impressão, tudo na internet piorou
Tudo na internet parece que está ficando uma merda. A boa notícia é que não é loucura sua. A má notícia é que tudo na internet está ficando uma merda. (Crédito da imagem: Colagem sobre arte de Devin Washburn)

Merdificação, parte 1: não é impressão, tudo na internet piorou

Também chamada "merdificação" em português, termo criado por jornalista canadense resume tendência do capitalismo de transformar tudo em... Bem, em merda

Esta é a primeira parte do especial sobre enshittification, ou "merdificação". Você pode conferir, nos links a seguir, o segundo, o terceiro e o quarto textos.

Certamente você já passou por este processo pelo menos algumas vezes: descobre um novo aplicativo ou site, excelente, e cria o hábito de usá-lo. Com o passar do tempo, seus amigos, familiares, colegas de trabalho, todos também aderem ao novo serviço.

Quando o público inteiro parece estar muito feliz com aquele site/app, chegam os anúncios. "A empresa precisa se sustentar", você avalia, e ignora a leve inconveniência, já que os benefícios a superam bastante. Então, vem o desastre: cada vez mais anúncios, "novas funcionalidades" que ninguém pediu e só tornam o uso mais estressante, coleta de dados progressivamente mais invasiva, e, no fim, você tem só mais uma plataforma tão ruim quanto todas as outras que existiam antes.

Parabéns, você foi mais uma vítima da enshittification — ou, em bom português, "merdificação".

Buscas no Google; qualquer uso existente do Facebook; acesso ao Instagram; conversas pelo WhatsApp; compras na Amazon; delivery de comida; incontáveis aplicativos — e mesmo o sistema operacional inteiro dos celulares, em alguns casos... Até o Tinder (e apps de relacionamento, como um todo) se tornou um inferno de usar.

O mais surpreendente é que, quando você olha ao redor, todos os seus amigos, familiares e colegas de trabalho seguem usando esses serviços, se adaptando aos crescentes desgostos. E você acaba fazendo o mesmo, já que parece não haver alternativas, e, mesmo que houvesse, seria um esforço imenso convencer todas essas pessoas a migrar para uma nova plataforma.

E eu com isso?

Por que essa matéria é importante:

A merdificação não é uma coincidência ou um acaso, e sim um elemento fundamental do capitalismo de plataforma. Entender como esse modelo de negócios funciona é o primeiro passo para se libertar das empresas que o adotam — e evitar ser vítima de outras no futuro.

O que é enshittification ou "merdificação"?

Cory Doctorow, jornalista canadense
Cory Doctorow, jornalista canadense que criou o conceito de “merdificação” — no inglês, “enshittification” (crédito da imagem: Frypie / Wikimedia Commons)

Em resumo, merdificação, ou enshittification, define a tendência inescapável no capitalismo — em especial do capitalismo de plataforma — de que os produtos e serviços tendem sempre a piorar de qualidade. Ainda que o termo tenha sido inicialmente aplicado a produtos e serviços digitais, a história da merdificação é inerente ao próprio capitalismo.

Enquanto os defensores do livre-mercado argumentam que a concorrência garante que os consumidores vão sempre preferir o produto que oferecer o melhor custo-benefício, a realidade é que o sistema é projetado para criar consumidores mal-informados, com baixa capacidade de tomar decisões de compra razoáveis por estarem exauridos graças a seus trabalhos desgastantes, que precisam priorizar os itens mais baratos devido a um salário de miséria, e que estão sujeitos à manipulação realizada pelos departamentos de marketing das empresas. Ou seja: as empresas não precisam competir para oferecer o melhor produto, elas precisam apenas convencer um consumidor, que não está em condições cognitivas de fazer uma escolha qualificada, de que aquele produto é o melhor.

Um bom exemplo é o dos incontáveis produtos ultraprocessados que se vendem como "naturais": pessoas que estejam tentando cultivar hábitos mais saudáveis para si ou familiares, por não terem plena consciência de que aquelas embalagens com elementos que remetem a bem-estar e autocuidado são mera jogada publicitária, acabam pagando mais caro em um produto que é tão prejudicial quanto os similares que não fingem ser benéficos ao organismo. Neste caso, há diversos graus de merdificação: a mera existência de ultraprocessados; a dificuldade de acesso à educação para discernir produtos realmente saudáveis daqueles que só simulam ser; o baixo poder de compra, que priva estas pessoas da possibilidade de consumir itens de melhor qualidade; o fato destes itens de melhor qualidade serem mais caros; a construção de uma sociedade que levou aquelas pessoas à situação de terem que fazer malabarismos com o orçamento; e mesmo a própria ideia da existência de dinheiro, se formos analisar realmente a fundo a raiz destes problemas.

Retomando a questão principal, o termo "merdificação" foi cunhado pelo jornalista canadense Cory Doctorow em duas etapas: inicialmente como "crapification" (que vou traduzir livremente como "bostificação"), em uma passagem solta de um texto publicado em fevereiro de 2022, sobre como a Amazon prejudica vendedores, consumidores e concorrentes ao mesmo tempo, com suas políticas de preço agressivas. A palavra foi usada em mais alguns textos, sobre temas diversos, e, em novembro daquele ano, Cory passou a adotar o nome mais conhecido de "enshittification", novamente descrevendo as práticas da Amazon.

Como a merdificação/enshittification funciona?

Vou descrever o processo reproduzindo abertamente a forma como Cory o fez (o que é, inclusive, estimulado pelo próprio, uma vez que os textos do jornalista são veiculados sob uma licença Creative Commons). Ele detalha, no texto, os processos de enshittification da Amazon e do Facebook. Usarei o segundo como exemplo, uma vez que tanto a Amazon chegou ao Brasil já em um estágio avançado de merdificação, quanto o mercado de compras online já era significativamente bem desenvolvido aqui à época. O Facebook, por outro lado, adotou o passo-a-passo de forma mais ou menos simultânea em todo o mundo. Seguem abaixo as etapas da merdificação de um produto/serviço online:

  1. Um app, site ou serviço novo é lançado, e precisa de usuários. Para isso, ela oferece um alto valor de uso, enquanto cobra um preço nulo ou muito baixo, bastante inferior ao valor de troca que oferece. Neste primeiro momento, a empresa opera em franco prejuízo, usando o dinheiro de fundos de investimentos para financiar sua existência. No caso do Facebook, esta etapa foi quando a rede tinha um feed cronológico, composto, principalmente, por publicações das pessoas que o usuário tinha adicionado como amigos;
  2. Em seguida, o app/site/serviço abre-se à participação de entidades: empresas, organizações, entes estatais, e criadores de conteúdo profissionais. Nesta etapa, ainda não há ganho financeiro, pois o objetivo é habituar as pessoas a consumir informação diretamente pelo app/site/serviço, e estimular as entidades a se fazerem presentes naquele espaço, que, agora, concentra grande parte do tempo dos usuários — um elemento fundamental no contexto da economia da atenção. Para os usuários, este estágio segue conveniente, pois passa a ser necessário sair menos do app/site/serviço para ter acesso a informações que antes só podiam ser adquiridas em outro local. Aqui, o valor de uso passa a se deslocar dos usuários para os chamados "fornecedores", um fluxo que se intensifica na etapa seguinte;
  3. Na terceira etapa, chegam as propagandas. No caso do Facebook, a oferta era, originalmente, triplamente vantajosa para os anunciantes: o preço para veicular publicidade na rede social era baixo; havia uma possibilidade imensa de segmentação, usando os dados que os próprios usuários forneciam espontaneamente ao Facebook, o que ampliava as chances de concretizar vendas, ao atingir diretamente o público com maior probabilidade de comprar o produto/serviço anunciado; e este público já dedicava uma quantidade imensa de tempo à rede social, havendo, portanto, garantia de que as propagandas seriam vistas massivamente. Mesmo com a cobrança, no entanto, a empresa que criou o app/site/serviço continua operando em prejuízo, pois o foco é atrair os anunciantes, da mesma forma como as entidades foram atraídas antes e, ainda antes, os usuários foram atraídos. Estes, por sinal, seguem usando o app/site/serviço, mesmo com os anúncios, pois as propagandas são, até aqui, poucas, não-invasivas, e não geram grandes inconveniências;
  4. Com os usuários presos nas interações entre humanos e com entidades, as entidades prezas pela necessidade de manter a comunicação organizacional acontecendo nestes espaços, e os anunciantes presos por não terem como conseguir a atenção de potenciais clientes em outro lugar, a empresa criadora do site/app/serviço pode fechar o cerco e tomar o valor de uso todo para si — portanto, para os fundos de investimento que bancaram o prejuízo durante as etapas anteriores. A partir deste momento, é possível adicionar quaisquer "funcionalidades novas" que destroem a experiência do usuário; inserir ferramentas de vigilância que monitoram cada passo virtual que você dá; aumentar vertiginosamente os preços de anúncios, reduzir o alcance deles, e impedir que entidades consigam se comunicar com pessoas sem que paguem por isso; e, em linhas gerais, tornar a experiência completamente insalubre, uma vez que não é viável, para a maioria das pessoas, entidades e anunciantes, deixar o app/site/serviço.

Os defensores do livre-mercado dirão que basta os usuários migrarem para outro app/site/serviço, mas:

  • Como migrar para outro app/site/serviço se nenhum conhecido seu o utiliza, e é impossível convencer dezenas de pessoas a migrarem juntas? De que vale o esforço para aprender a usar um novo app/site/serviço se você vai ficar sozinho nele?
  • Como as entidades vão operar no novo app/site/serviço, dedicando tempo para entender o funcionamento da plataforma, se não há público?
  • Por que os anunciantes vão gastar dinheiro com mais um canal de publicidade, se ninguém usa, e não há interações nem entre humanos, nem de humanos para entidades?

Merdificação online e offline: o enshittification não se restringe ao mundo virtual.

Máquina de cartão apenas com tela touch, sem teclado
Máquina de cartão apenas com tela touch, sem teclado, são um excelente exemplo de merdificação: o produto efetivamente piora, pois torna-se inacessível a pessoas cegas, gera aumento de custos (devido à necessidade de carregamento mais frequente) e, caso apresente problemas ou sofra danos, o conserto sai muito mais caro
(Crédito da imagem: divulgação / Uma Certa Empresa Argentina Que Opera Um Marketplace No Brasil)

O fator fundamental que permite às empresas merdificar seus produtos e serviços é o chamado "custo de saída". A estratégia adotada é fazer com que seja muito caro — em questões de capitais social, cultural e financeiro — deixar uma plataforma e ir para outra.

Deste modo, não é necessário ter "o melhor produto" (ou serviço) para prosperar: basta tornar inviável que seus consumidores mudem para produto/serviço. Isso garante um domínio de mercado de três formas:

  • Primeiro, com o monopólio tradicional: ser o único fornecedor permite controle dos preços e, consequentemente, ganhos exorbitantes;
  • Segundo, impedindo o surgimento da concorrência: se outras plataformas surgirem, vai ser tão complicado para os consumidores as adotarem, que as empresas responsáveis por elas terão grandes dificuldades em manter uma sustentabilidade financeira;
  • Por fim, fagocitando as ameaças: uma vez que o monopólio tem muito dinheiro em caixa, basta aguardar tempo o suficiente para que os concorrentes cheguem em uma situação crítica, por melhores que sejam seus produtos/serviços, e comprar estas empresas menores.

Em relação ao segundo e terceiro aspectos, há apenas uma maneira de ter chances reais para competir com os grandes players: operando no prejuízo pelo máximo de tempo possível. O exemplo do Facebook é bem didático neste aspecto; mas este modelo de negócios nem surgiu com o Facebook, nem ficou restrito a ele — e, na realidade, é o modus operandi padrão das plataformas já há algumas décadas.

Essas "plataformas" não são apenas redes sociais. O termo tem um sentido mais amplo, se aplicando, entre outros, a:

  • Serviços online: se você tem milhares de reais em jogos da Steam, dificilmente passará a usar a Epic Games Store — e seus amigos todos estão na Steam, ainda que, possivelmente, sigam usando a Steam também somente por este motivo;
  • Dispositivos eletrônicos: se sua casa conta com uma dúzia de produtos da Apple, migrar para um "ecossistema" baseado em aparelhos da Samsung, Huawei, ou qualquer outra marca custa dinheiro, tempo, e o esforço de aprender a usar os novos equipamentos — fora que, se uma pessoa da casa, ou mesmo uma visita, tiver um aparelho da Apple, ela terá dificuldade em usá-lo junto com os outros dispositivos;
  • Itens totalmente não ligados a tecnologia: se você compra um fogão por indução, precisa trocar todas as suas panelas por modelos compatíveis; se volta para um fogão a gás, precisa trocar novamente; se decide adotar equipamentos antiaderentes, precisa substituir os utensílios de metal — e, neste processo, sempre terá a possibilidade de ganhar de presente objetos que não funciona com o fogão e/ou com o jogo de panelas atual.

Antes de entender como se proteger da merdificação, no entanto, é necessário compreender que ela ocorre não apenas em processos mais longos, como os descritos acima, mas também causando efeitos danosos no dia-a-dia. Isto porque, após tantas experiências "bem sucedidas", técnicas de enshittification passaram a ser adotadas já de partida por apps/sites/serviços. Com isso, a prática se tornou uma tendência — perversa — seguida por incontáveis desenvolvedores e designers de interfaces, profissionais que executam as diretrizes, definidas pelas empresas, de prejudicar os usuários no máximo grau possível em que isso signifique extrair lucro a partir deles.


Na segunda e na terceira partes desta análise, serão apresentados exemplos de como isso ocorre em situações corriqueiras. A merdificação está presente em momentos tão cotidianos como ao pedir corridas por aplicativo, buscar horários de transporte público, ver informações sobre a sua linha telefônica, usar seu computador para diversos fins, e mesmo na procura de um relacionamento afetivo. Para que você não fique na expectativa, todos os textos do especial foram publicados simultaneamente, então basta clicar aqui para acessar o próximo conteúdo!

Merdificação, parte 3: computadores com enshittification "de fábrica"
Se o próprio sistema operacional é pensado na lógica da merdificação, não basta se livrar de aplicativos e parar de usar sites que tenham enshittification (crédito da imagem: Colagem sobre arte de Devin Washburn)

Merdificação, parte 3: computadores com enshittification "de fábrica"

Pouco adianta despender um esforço imenso tentando evitar merdificação em sites e apps se o próprio dispositivo tem enshittification como "funcionalidade"