Manifesto de fundação: as empresas — e a imprensa — de Tecnologia precisam por a mão na consciência
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Manifesto de fundação: as empresas — e a imprensa — de Tecnologia precisam por a mão na consciência

Versão inicial, em 16.12.2025

Certamente que há um quê de ego inflado em um site independente, criado por uma só pessoa, ter um "manifesto de fundação". Isso não ocorre por megalomania, uma ilusão de o Citei ter muito mais importância do que provavelmente terá. Ocorre, primariamente, por dois motivos:

  1. Transparência com o público. É fundamental que quem leia o Citei saiba de qual lugar social parte quem escreve o Citei. A imparcialidade da mídia é um mito, e a grande imprensa reforça este mito exclusivamente para vender a noção — falsa — de que os interesses defendidos por ela são a definição de "neutro". O estado de arte do jornalismo é a objetividade na apuração e apresentação dos fatos, ao mesmo tempo em que respeita a subjetividade de quem produz e de quem consome aquele conteúdo;
  2. Profissionalmente falando, um determinado nível de arrogância — nos aspectos certos — é uma vantagem estratégica para jornalistas. Se nosso trabalho existe, fundamentalmente, para combater injustiças e responsabilizar quem as comete, é preciso ter o ego inflado, ao menos em alguns âmbitos, para bater de frente com os detentores do poder. Caso contrário, correríamos o risco de não investigar ir tão a fundo como estes detentores jogam sujo para perpetuar seu poder, conseguir vantagens em detrimento da população, e esconder os rastros de que fazem isso. Também haveria o perigo de, como acontece na imensa maioria da imprensa, cairmos em subserviência àqueles que deveríamos fiscalizar e denunciar. É, no entanto, necessário equilibrar essa arrogância com uma profunda humildade: humildade perante o público, razão de existir deste ofício — sem o qual o jornalismo é inefetivo, e sem o qual jornalistas não conseguem sequer pagar as contas.

Estes dois pontos já dizem muito sobre qual tipo de conteúdo este site produz e valoriza. Nossos valores também envolvem uma leitura profundamente crítica do mercado de tecnologia: quais os interesses das empresas do ramo e de seus proprietários, e como agem, na relação com estas organizações e indivíduos, governos de todo o mundo.

Isto não significa nos eximir de coberturas cotidianas, como lançamentos de produtos ou surgimento de inovações. Apenas implica que esta cobertura será feita, sempre, considerando as implicações sociais, ambientais, trabalhistas, entre outras, destes aspectos que, no dia-a-dia, costumam ser abordados de maneira acrítica pela imprensa especializada.

Também é importante ressaltar a defesa inegociável de determinados valores, a ver:

  1. Oposição a todas as formas de opressão, como machismo, racismo, LGBTfobia, psicofobia, etarismo, xenofobia, capacitismo, intolerância religiosa, aparofobia, e quaisquer outras, inclusive aquelas cometidas e/ou estimuladas pelo Estado e pelo Capital;
  2. Respeito aos Direitos Humanos, não somente na forma limitada pelo pensamento liberal da Declaração Universal de 1948, mas dentro de uma lógica que inclua o direito ao bem-viver de todas as formas de vida, como exemplificado na concepção usada pela Constituição de 2008 do Equador e pela Lei Federal nº 71/2010 do Estado Plurinacional da Bolívia, que definem o Planeta Terra (e todos os seres que nele habitam), na figura da Pacha Mama, como sujeito de direitos;
  3. O anti-colonialismo em sua forma mais radical existente, estendendo-se a questões de raça, cor, gênero, sexualidade, religião, idioma, Estado-nação, e todas as formas de monocultura;
  4. O direito da classe trabalhadora ao fruto do seu labor, em contraposição ao acúmulo de Capital pela exploração da mais-valia; que o proletariado, enquanto classe coletiva, é o único proprietário legítimo de todos e quaisquer meios de produção;
  5. Prevalência da coletividade frente ao individualismo, salvo em casos de ameaça aos direitos do indivíduo ou em questões referentes única e exclusivamente à vida privada;
  6. Democracia direta como única forma legítima de exercício do poder, com especial oposição a formas de governo autocráticas;
  7. Oposição a qualquer forma de pensamento ou discurso anti-científico, com a compreensão de que as pseudo-ciências pertencem ao campo das crenças individuais e as semi-ciências têm respaldo limitado, sendo sua aplicação aceitável sob determinadas restrições;
  8. Que o ponto anterior não pode ser usado para deslegitimar a cosmovisão de povos tradicionais e originários, tampouco o apego a um purismo científico é pretexto aceitável para a defesa de epistemicídios e de colonialismo intelectual;
  9. Celebração da e estímulo à diversidade de pensamentos, crenças, corpos e formas de existir, enquanto elemento promotor da realização plena do potencial humano;
  10. Não-superioridade da vida humana a quaisquer outras formas de vida, com especial observação ao item 2 desta lista;
  11. Valorização do diálogo (inclusive, caso necessário, mediado por terceiros considerados confiáveis por todas as partes envolvidas) como forma primordial de resolução de conflitos, priorizando a justiça restaurativa em detrimento de quaisquer métodos punitivistas;
  12. Que o ponto anterior não seja usado como subterfúgio para revitimização, mora no atendimento a queixas legítimas, negligência, ou desagravo de ato ofensivo ou violento cometido pela parte acusada;
  13. Não-diferenciação de gravidade entre as formas de violência: física, psicológica, sexual, patrimonial, e moral; com especial agravo às violências cometidas, estimuladas ou encobertas por meio de estruturas ou instituições sociais;
  14. Direito à legítima defesa, observando o disposto no item anterior;
  15. O repúdio à censura prévia e valorização das liberdades de cátedra, expressão e imprensa amplas, totais e irrestritas, salvo nos casos em que o abuso destas viole ou ameace direitos alheios;
  16. Que o ponto anterior não seja usado como pretexto para escapar de responsabilização por prejuízo, dano, ofensa ou agressão a outras pessoas, compreendendo as liberdades elencadas como limitáveis na eventualidade em que isso seja necessário para resguardar a integridade de outrem, e como garantia tão somente de que, resguardadas as hipóteses já listadas, nenhum discurso será impedido de ser proferido, não implicando isto na imunidade às consequências da propagação do discurso — inclusive a exclusão e impedimento preventivo de novas manifestações;
  17. Que a imprensa deve ser livre de interesses corporativos e estatais, representando única e exclusivamente uma prerrogativa popular de divulgação das diversas formas de existência, da fiscalização de poderes, e de promoção do pensamento crítico;
  18. Direito à privacidade e ao anonimato, não sendo o combate a práticas criminosas realizadas ou facilitadas por meios criptografados justificativa válida para a aplicação de técnicas ou métodos de monitoramento; que estas práticas sejam combatidas em sua origem social, e não com a adoção de uma cultura de vigilância massiva;
  19. Direito ao contraditório e ao julgamento justo, não sendo isto uma justificativa válida para a aplicação do "doisladismo" acrítico;
  20. Valorização de ocupações que não sirvam ao Capital, como cultura, artes, artesanato, cuidados, ciências sociais, entre outros ofícios cujo fim principal não seja a geração de lucro, enquanto atividades profissionais e meios de vida legítimos;
  21. Similarmente ao ponto anterior, que o trabalho sexual é uma forma válida e legítima de trabalho, inclusive no aspecto de que qualquer pessoa que realize este trabalho e deseje migrar para outro ramo profissional deve ter apoio para fazê-lo, e que a exploração e violências diversas presentes na indústria pornográfica são inerentes ao capitalismo, e não à pornografia; inexistência de distinção entre pornografia e erotismo;
  22. Compreensão da tecnologia também como forma de expressão cultural, com a ressalva de que a produção científica e tecnológica é atravessada e condicionada pelos valores da classe dominante, sendo, portanto, necessário considerar este viés ao analisar o desenvolvimento tecnológico desde suas aplicações cotidianas e voltadas a consumidores finais até suas formas mais elaboradas, sistêmicas, e ocultas;
  23. Entendimento de jogos, analógicos ou digitais, como arte, compreensão que engloba tanto sua produção quanto seu consumo, inclusive o consumo quando tornado em produto de entretenimento;
  24. De forma similar ao ponto anterior, compreensão de e-Sports como esportes, em especial devido a requisitos de preparo físico e da diferenciação de características físicas dos competidores como fator determinante para o desempenho em partidas, com a ressalva de que a manutenção das diversas modalidades sob propriedade de empresas privadas limita o potencial destas modalidades em diversos aspectos;
  25. Defesa da autodeterminação de povos e comunidades tradicionais, bem como de indivíduos em seus marcadores identitários;
  26. O direito de autor como algo inalienável, sendo válida a facultação, ao criador de qualquer obra, do uso de pseudônimo por quaisquer motivos, mas não sendo legítima a apropriação da autoria por terceiros, mesmo que sob a justificativa de vínculo empregatício ou prestação de serviços;
  27. Regulamentação, com o maior nível de restrição física, social e humanamente possível, do uso de quaisquer tecnologias de Inteligência Artificial, em especial IA Generativa e IA Geral, principalmente em áreas como tomada de decisões, sistema judiciário e guerras; a compreensão de que materiais como ilustrações, audiovisual, textos, fotografia e quaisquer outros, gerados por IA, não se qualificam enquanto arte;
  28. Compreensão de que opressões são estruturais, ligadas a sistemas de poder, e não resumidas a posicionamentos individuais, implicando que, por definição, não existem práticas como "racismo reverso", "heterofobia", ou intolerância religiosa contra crenças hegemônicas. A reação do oprimido não é e jamais será equiparável à violência do opressor.
Merdificação, parte 3: computadores com enshittification "de fábrica"
Se o próprio sistema operacional é pensado na lógica da merdificação, não basta se livrar de aplicativos e parar de usar sites que tenham enshittification (crédito da imagem: Colagem sobre arte de Devin Washburn)

Merdificação, parte 3: computadores com enshittification "de fábrica"

Pouco adianta despender um esforço imenso tentando evitar merdificação em sites e apps se o próprio dispositivo tem enshittification como "funcionalidade"

Merdificação, parte 1: não é impressão, tudo na internet piorou
Tudo na internet parece que está ficando uma merda. A boa notícia é que não é loucura sua. A má notícia é que tudo na internet está ficando uma merda. (Crédito da imagem: Colagem sobre arte de Devin Washburn)

Merdificação, parte 1: não é impressão, tudo na internet piorou

Também chamada "merdificação" em português, termo criado por jornalista canadense resume tendência do capitalismo de transformar tudo em... Bem, em merda