Afinal, o que é uma notícia (e um jornalismo) de Tecnologia?
Às vezes, a editoria menos movimentada de um site de tecnologia é... Tecnologia

Afinal, o que é uma notícia (e um jornalismo) de Tecnologia?

Lançamentos de produtos ou vazamentos de dados certamente interessam à mídia especializada, mas o 18° filho de um bilionário ou uma pesquisa sobre aluguéis? Não, obrigada.

Este texto é o segundo da série de materiais "basilares" do Citei, conteúdos analíticos que aprofundam nossa linha editorial sobre alguns tópicos. Recomendo a leitura da primeira publicação da série, sobre como a imprensa especializada não considera, com a frequência necessária, impactos sócio-ambientais da tecnologia.

Na escola em que estudei a maior parte da vida, lembro de, certa feita, ter ouvido um profissional do setor de TI reclamar que eles considerados responsáveis "por tudo o que liga na tomada". Tendo atuado com suporte técnico por mais de uma década, tanto dentro de empresas quanto como freelancer, pude, anos depois, confirmar o desabafo daquele rapaz: resolver problemas com aparelhos de ar condicionado e fornos de micro-ondas são demandas tão habituais quanto "consertar o computador que não funciona de jeito nenhum" (o monitor estava desligado) ou aquele funcionário da Contabilidade que insiste toda semana para você ensiná-lo a hackear o WhatsApp da esposa (não vou nem pontuar sobre ser anti-ético e ilegal, a grande questão é que esse pessoal não compreende que nós sequer sabemos como fazer isso).

Liz Howard, engenheire de software que promove ações educativas e produz conteúdo para redes sociais sobre os riscos da IA, mostra, em um de seus vídeos (aproximadamente na marca de 1:00), que isso é intencional. Se as pessoas acharem que tecnologia é algo misterioso e mágico, vão achar que quem entende do tema tem conhecimentos quase sobrenaturais. Não é pertinente me aprofundar nesta questão agora, vou apenas pontuar que esse mito funciona bem para encher os bolsos dos magnatas do ramo, mas é péssimo para o cotidiano de quem trabalha com isso.

Em resumo, a diferença deveria ser simples: se o computador do escritório ficou sem internet, você contata a equipe de TI. Se o site da empresa está apresentando problemas, você contata a equipe de desenvolvimento (e, se o ar condicionado não está gelando, você contata o departamento de manutenção). Ainda que haja uma certa intersecção entre as funções, tanto em ferramentas (tanto técnicos de suporte quanto programadores, por exemplo, usam com frequência a linha de comando) quanto na definição mais básica da área de atuação (ambas as posições são "de tecnologia"), e que haja, com frequência, interação entre esses times, é pouco provável que um programador saiba configurar a impressora, ou que o técnico de suporte saiba resolver aquele bug que impede o sistema de gerar o relatório que você está precisando.

camiseta com o texto "no, I will not fix your printer" ("não, eu não vou consertar sua impressora") e a ilustração de uma impressora
Meu irmão, programador, tinha uma camiseta dessas. Ele até sabia consertar impressoras, só não era pago para isso.

E, mesmo que saibam, não necessariamente vão ser as pessoas mais indicadas para a tarefa, por não serem profissionais especialistas naquela questão. Um pedreiro e um eletricista terão, ambos, chaves de fenda nos seus kits de ferramenta, e você pode pedir para um pedreiro trocar uma tomada com defeito ou para um eletricista checar se a tubulação está instalada corretamente, mas só porque estas tarefas são tão corriqueiras em ambos os ofícios que é mais prático a alguém de uma área correlata aprender a fazê-las, ainda que de uma forma básica, que buscar sempre a ajuda de outro profissional. Mas você não contrata um eletricista para levantar uma parede, ou um pedreiro para renovar a fiação de uma casa, a não ser que o profissional em questão seja pedreiro e eletricista. Todavia, chamar alguém que seja especialista é sempre garantia de um serviço de melhor qualidade.

Toda essa introdução é para pontuar que: ainda que seja bem chato precisar explicar dezenas de vezes, para o público leigo, as diferenças entre as funções, quem trabalha com tecnologia definitivamente as entende bem. Se um programador procura o departamento de TI para consertar a cafeteira da copa, ou ele está propositalmente querendo irritar alguém, ou ele não entende o escopo do seu próprio ramo de atuação. E, ao trabalhar com notícias sobre tecnologia, o mínimo que se espera de um profissional, seja repórter, seja assessor de imprensa, é que também entenda.

Mas não é — nem de longe — o que acontece. Embora tenha começado a atuar propriamente como jornalista apenas em 2020, tenho mais de 15 anos de experiência com publicações online e, mais especificamente, escrevendo sobre tecnologia. E, neste aspecto, a única coisa que me assusta mais do que o tipo de material que assessorias de imprensa tentam emplacar, é o tipo de material que as agências conseguem convencer a imprensa especializada a publicar.

O agro pode até ser tech, mas o tech é agro?

Se uma empresa de automação industrial desenvolve um sistema que usa IA para otimizar a irrigação de lavouras, isso pode ser — mas não necessariamente é — interessante para um veículo ou editoria de Tecnologia. A intersecção entre os ramos, em uma pauta do tipo, é bem evidente. Isto não significa de forma alguma, no entanto, que seja pertinente convidar repórteres que cobrem tecnologia, por exemplo, para uma feira de agronegócio na qual porventura a empresa apresentará o novo produto.

O raciocínio é: se haverá apenas duas ou três empresas, no evento, que poderiam render alguma pauta de tecnologia, o convite para a cobertura é uma aposta de que os veículos de tecnologia falarão principalmente daquela que fez o convite. Cabe apontar que o inverso também é válido: se a empresa decide fazer o anúncio em uma feira de tecnologia, convidar repórteres que cobrem agronegócio significa que ela terá deles atenção quase que exclusiva, uma vez que serão pouquíssimas as empresas deste ramo dentro do evento.

Convidar jornalistas para feiras, congressos e similares é prática corriqueira no jornalismo especializado, em dezenas de nichos. No ramo de tecnologia, há três grandes eventos mundiais: um em Berlim, na Alemanha; um em Las Vegas, nos Estados Unidos; e um em Barcelona, na Catalunha. Mesmo grandes veículos têm dificuldades em bancar a presença de repórteres nos três locais, enquanto sites independentes quase que necessariamente confiam em press releases para noticiar os lançamentos. Não raro, fabricantes oferecem a possibilidade de bancar transporte e hospedagem para alguns jornalistas. Há uma expectativa óbvia de retorno, com cobertura dos lançamentos e palestras, acompanhar a movimentação no stand da empresa que fez o convite, entre outros. Ainda que não haja uma obrigação contratual de fazê-lo, atender a estas expectativas é uma cortesia profissional às assessorias de imprensa e agências relações públicas (e algo óbvio para quem tem qualquer ambição mínima de carreira que seja) que viabilizaram a viagem.

Para preservar a ética da profissão, no entanto, é necessário que haja duas condições fundamentais. Primeiramente, explicitar, nos textos publicados sobre o evento, que a viagem foi bancada por determinada empresa, de forma a evitar a omissão de possíveis conflitos de interesse. A segunda é justamente evitar a criação destes conflitos: o convite não pode estar atrelado a uma cobertura exclusivamente positiva — naquele contexto ou em qualquer momento futuro — daquela empresa, ou à cobertura exclusiva (ir apenas aos lançamentos de produtos e palestras, e permanecer apenas no stand da empresa que fez o convite).

Este último ponto é o crucial nesta questão: jornalistas de Tecnologia são jornalistas de Tecnologia, não jornalistas da empresa XYZ. Convidar repórteres para um evento com a proibição de que cubram outras partes do evento, mesmo aquelas relacionadas a concorrentes diretos, é cercear a liberdade de imprensa (assim como exigir uma cobertura positiva, mas isso não é relevante no argumento que estou construindo). E existem diversas formas de fazer isso, inclusive algumas supostamente positivas, como elaborar uma "programação de viagem" que deixe os jornalistas ocupados demais cobrindo a empresa que bancou a viagem, de modo a ficarem sem tempo para cobrir concorrentes. No caso em questão, convidar jornalistas especializados na área X, para um evento do ramo Y, quando aquela empresa será a única (ou quase isso) cuja atuação engloba os setores X e Y, é também um modo de forçar um direcionamento específico à cobertura que estes profissionais poderão fazer.

Considerando que ao pesquisar o nome de apenas um evento de agronegócio, na minha caixa de entrada, encontrei nada menos que 43 e-mails, desde 2021, com releases vindo de diversas empresas, aparentemente esta noção não é tão óbvia quanto deveria. Ou é óbvia, mas é propositalmente ignorada.

"Sites para adultos" são mais para adultos ou mais sites?

Tentemos outro exemplo: plataformas de conteúdo adulto. Não que haja qualquer problema com o conteúdo em si — inclusive, o ponto 21 do Manifesto de fundação do Citei é bem incisivo na defesa do trabalho sexual. A questão é a pertinência. A plataforma lançou uma nova funcionalidade, seja para criadores, seja para usuários, que é relevante do ponto de vista da tecnologia? Posso não ter interesse em noticiar, mas jamais direi que não está no escopo que cubro.

Um caso clássico é o "year in review", levantamento anual feito pelo Pornhub, um dos maiores sites de pornografia existentes. Além de trazer insights como o fato de que a categoria "trans" é a mais popular na Rússia — país onde ser LGBT é considerado "extremismo"doença mental —, a retrospectiva feita pela plataforma é habitualmente noticiada pela imprensa especializada em tecnologia. "Influencer revela que fã vai acionar o PROCON após achar que tem pouca foto do seu bumbum no OnlyFans", por outro lado, não se enquadra em Tecnologia nem se esticarmos a definição ao máximo.

E, caso você esteja se perguntando: sim, este é um release real que recebi de uma assessoria de imprensa. Eu queria que não fosse.

influencer diz que fã ameaçou acionar o procon por fotos no onlyfans
Eu realmente queria que não fosse real

O release não precisa ser sobre Tecnologia para ser enviado a jornalistas que cobrem Tecnologia

O problema não é isolado ou novo. Em junho de 2024, uma publicação de Fernanda Lara, CEO do I'Max, ferramenta de mailing (plataforma para a qual assessores de imprensa enviam conteúdo, indicando a quais editorias o material se refere, e na qual jornalistas se cadastram para receber conteúdo dessas assessorias, indicando quais editorias cobrem), ponderou que, realisticamente, jornalistas recebem, em média, 180 e-mails de assessorias de imprensa diariamente. Em uma profissão cuja carga base é de 5 horas diárias, considerando o que se gasta apurando pautas e escrevendo matérias, é inevitável que nos sobre um tempo extremamente limitado para checar sugestões enviadas por assessorias.

(Aviso de interesses: O Citei faz parte da rede Mais Pelo Jornalismo, que recebe apoio estrutural e administrativo da I'Max; a empresa não tem acesso prévio ou influência nos conteúdos publicados pelo Citei ou por qualquer site da rede)

A questão, então, se resume a um elemento muito importante: critérios de noticiabilidade. O conceito é tão simples e fundamental que se aprende, via de regra, no primeiro ou segundo semestre da faculdade de Jornalismo. Em suma, é determinar se um conteúdo é relevante ou não para o público do veículo.

Um escritório de advocacia comentando o lançamento de uma cartilha sobre atendimento pro bono em um congresso de advogados — novamente, uma pauta real que recebi — não é relevante para um site ou editoria de Tecnologia. Ainda assim, o e-mail indicava que foi enviado especificamente para jornalistas desta editoria.

O motivo é simples: no encerramento do trimestre, as assessorias querem apresentar números cada vez maiores nos relatórios, para garantir a renovação do contrato. A ânsia em disparar releases para todos os lados acaba faz com que a agência produza materiais de forma mais corrida, com menor qualidade, e não cultive relacionamentos com jornalistas realmente especializados naquela área, o que acaba levando, no fim das contas, a resultados piores.

Se rende acesso, 'tá valendo?

Mais preocupante que isso é quando os veículos, pelo motivo que for, resolvem "surfar nessa onda", e passam a, de fato, noticiar temas que não têm relação alguma com o ramo. O ar condicionado quebrado que motiva um chamado ao departamento de TI não é nada perto de um site de tecnologia noticiando o lançamento de um ventilador. Não é um ventilador smart: ele não tem Bluetooth nem se conecta a outros eletroeletrônicos, não é comandado por aplicativo, não tem um sensor de temperatura para detectar em qual parte do corpo você sente mais calor, nada do tipo. Mas, como é ligado à tomada, aparentemente está apto para virar notícia de Tecnologia. E dá para piorar, obviamente: que tal uma lista com os sete melhores ventiladores do mês?

Há ocasiões em que a interseção pode ser mais defensável: se, atualmente, a maior parte das séries — e uma boa quantidade de filmes — é produzida por empresas de streaming, faz sentido que este assunto seja noticiado em sites de Tecnologia. O que não necessariamente significa que premiações de audiovisal sejam relevantes para este público — mas os sites estão noticiando mesmo assim.

Não é porque você pode escrever sobre Tigrinho que você deve escrever sobre Tigrinho

Outro exemplo, mais delicado, são plataformas de apostas. Certamente, o fato de elas operarem majoritariamente pela internet poderia justificar uma cobertura sobre elas. Todavia, estas plataformas não são empresas de tecnologia, são empresas que usam tecnologia nos seus negócios. Não é porque redes como O Boticário e Natura têm aplicativos próprios que um site de celulares vai passar a escrever sobre perfumes e cosméticos, certo? Para além disso, estas plataformas são, tão somente, "loterias" que você consegue jogar pelo celular. Mas continuam tendo pontos de venda físicos — por vezes, imensos.

Loteria loja física casa apostas Fortaleza Ceará CE 1
Às vezes, é só um glorified jogo do bicho. Crédito: reprodução/Google Street view

Há outros fatores que explicam o caso específico das bets: é um mercado multibilionário, que cresceu quase 1.400% em pouco mais de uma década — explodindo em faturamento, em especial, nos últimos cinco anos. As empresas do setor se mantêm, fundamentalmente, com manipulação de comportamento do usuário, causando efeitos análogos ao vício (e, com frequência, realmente de vício). Isso causa efeitos devastadores na economia, com quase dois terços dos usuários relatando que as apostas comprometem sua renda habitual, fazendo com que deixem de comprar itens como roupas, produtos de higiene, medicamentos e alimentos.

E todo este dinheiro — R$ 22 bilhões somente em 2025, segundo projeções do setor — implica na possibilidade de investir pesado em publicidade. Isso inclui veículos de comunicação dos mais tradicionais aos mais modernos, praticamente todas as modalidades esportivas, influenciadores, fora propagandas mais usuais, como outdoors. Isso cria um ciclo que se retroalimenta, pois, quanto mais são bombardeados de propagandas das bets, mais os usuários buscam estas plataformas.

E, por isso, é vantajoso para portais ou editorias de Tecnologia escrever a respeito: o tema tem alta procura. De matérias com palpites para um jogo de futebol a textos sobre quais sites têm "as maiores odds", passando por listas de "melhores casas de aposta em janeiro de 2026", estes portais e editorias se enchem de conteúdos que não têm absolutamente nenhuma relação com inovação, eletrônicos ou internet. Exceto, obviamente, pelo fato de que as apostas são feitas com o uso de eletrônicos, através da internet... Como absolutamente qualquer coisa pode (e habitualmente é) feita pela internet atualmente.

Mas desconsideremos, por um momento, todas as implicações éticas de noticiar com neutralidade um fenômeno social cujas consequências são terríveis para famílias da classe trabalhadora e até para "o setor produtivo". Ainda assim, a situação permanece problemática. Isso porque, assim como no caso de matérias sobre ventiladores, sobre o Globo de Ouro, ou sobre IPVA, a falta de relevância é propositalmente ignorada, devido ao potencial de retorno financeiro com a alta quantidade de acessos — especialmente quando consideramos a quantidade desrespeitosa de anúncios que cada página dessas abriga. Ou seja: o critério de noticiabilidade fundamental deixa de ser o interesse público — que é "apenas" o fator mais importante no jornalismo — para se tornar "quanto dinheiro é possível espremer do assunto".

Ainda que este problema não seja restrito à imprensa especializada em tecnologia, é neste ramo onde a situação parece mais grave. Pode-se argumentar que um site sobre esportes, área que tem grande potencial de acessos (não por acaso, o Google Trends, ferramenta que monitora em tempo real os termos mais pesquisados, tem seu ranking sempre dominado por buscas sobre esportes) e que consegue cobrir temas como apostas com um grau significativo de relevância, não precisa desviar do assunto principal para se manter sustentável. Algo parecido pode ser dito sobre economia, por exemplo: nas poucas situações em que estes portais não são lucrativos pela audiência que angariam, há razões ideológicas (que não vale a pena aprofundar no momento) que justificam, para as grandes empresas deste setor, aportes na forma de patrocínios ou ações similares.

Todavia, mesmo nichos onde tanto as publicações independentes quanto as de grande porte possam ter mais dificuldades em se bancar, o desvio do tema, quando ocorre, não é tão frequente ou tão intenso. Um site sobre moda, caso faça matérias que falem de obras audiovisuais, provavelmente relacionará este assunto ao tema principal da sua cobertura cotidiana. Da mesma forma, um portal especializado em notícias automotivas não deixa de aproveitar, por exemplo, o alto volume de buscas por matérias sobre pagamento de impostos e taxas, habitual no começo do ano — mas o faz limitando a cobertura a cobranças pertinentes, como licenciamentoIPVA.

É inegável, também, que existem algumas linhas tênues entre o que é relevante enquanto notícia de tecnologia e o que não é. Uma pesquisa — também retirada de um release real — apontando que 64% dos brasileiros já usaram cartões de crédito virtuais, para mim, parece ter mais relevância em um site ou editoria de Economia, e dificilmente seria algo que eu publicaria no Citei. No entanto, não é uma matéria que, caso seja feita em um site ou editoria de Tecnologia, alguém possa apontar como totalmente deslocada.

No entanto, há incontáveis temas que entram no escopo de "dá para entender qual a desculpa que alguém usaria para tentar emplacar isso como notícia de Tecnologia, mas definitivamente não é uma notícia de Tecnologia". E há uma quantidade imensa de portais ou editorias de Tecnologia noticiando estes tópicos. Da mesma forma, há pautas que é indefensável que estejam em nestes portais e editorias. Ainda que plataformas de streaming transmitam partidas de futebol, matérias diárias sobre "onde assistir os jogos de hoje" não atendem, de forma alguma, a critérios de noticiabilidade em um site ou editoria que não seja sobre esportes. Mas, novamente, há uma quantidade imensa de portais ou editorias de Tecnologia noticiando estes tópicos.

Portanto, ainda que existam situações onde seja discutível se uma pauta é relevante, em muitos casos a resposta é um sonoro "não". Mas mesmo a discussão em si pouco importa. Pois, independentemente de qual seja a resposta, e, sem sombra de dúvida, nos casos em que o tema de uma matéria seja absolutamente desconexo do ramo de tecnologia, os veículos que fazem este tipo de publicação têm pouco ou nenhum apreço pela pertinência. O objetivo fundamental é descobrir sobre quais assuntos se consegue falar sem perder audiência (mais sobre isso em um instante), e, assim, ampliar fontes de renda.

A shoptimização do jornalismo de tecnologia

Isso é especialmente verdade nos casos dos "guias de compras". Um "bom mau exemplo" é a Wired, revista e portal (supostamente) sobre tecnologia com mais de 30 anos de existência. Segundo o próprio veículo, a Wired "lidera o debate sobre como a tecnologia está mudando cada aspecto das nossas vidas". Não é uma publicação, portanto, da qual se esperaria guias de compras listando remédios para dormir, facas de cozinha, ou calças casuais. Embora a seção de "melhores X" do site inclua uma boa quantidade de categorias tecnológicas, eletrônicos passam longe de ser o único tipo de produto recomendado.

Isso porque esses guias de compra são uma fonte crucial de renda para muitas publicações. Cada venda realizada a partir dos links usados nestas matérias gera uma pequena comissão para o portal — em alguns casos, mesmo que o leitor acabe comprando outro produto que não aquele que o levou à loja.

Não há nada intrinsecamente errado com links de afiliados — inclusive, em dado momento, eles serão usados aqui no Citei. É uma forma de financiamento interessante para veículos de tecnologia, pois permite, por exemplo, que não precisem se abster de criticar um produto ou empresa por receio de que aquela empresa deixe de anunciar no site. Em alguns casos, colegas já me pontuaram ser esta a sua principal fonte de renda, garantindo que dependam menos de "publis". Ou seja: possibilitam um jornalismo mais autônomo e independente.

O problema é que a função do jornalismo é informar. Prega-se que, tanto quanto possível, a parte comercial deve ficar distante — inclusive fisicamente — da redação. O objetivo disso é garantir que a produção de conteúdo funcione para angariar audiência pela credibilidade do veículo, e os espaços publicitários sejam vendidos para empresas que querem se beneficiar da visibilidade proporcionada pela ampla audiência, criada a partir da credibilidade.

E, inicialmente, guias de compras eram publicados de forma mais orgânica. Obviamente que jornalistas de tecnologia, após testarem dezenas de aparelhos, têm propriedade para recomendar os melhores produtos, a depender da necessidade de quem está perguntando. E, com isso, este tipo de matéria aparecia como algo mais pontual, quase que algo feito, por quem escrevia estes textos, para auxiliar, de uma só vez, inúmeros leitores, mas também amigos e familiares. Os guias eram, portanto, consequência do conhecimento angariado, não um fim em si mesmos.

Atualmente, no entanto, os grandes veículos têm "editorias" especificamente para criar matérias recomendando produtos. E, na imensa maioria das vezes, quem escreve estes textos sequer teve contato com aqueles itens. Os guias de compras acabam sendo apenas uma comparação de especificações, um apanhado de opiniões de compradores, e um pouco de como a pessoa que escreve acha que deve ser usar o dispositivo. Afirma-se "estes são os cinco melhores fones de ouvido em dezembro de 2025", não porque o autor usou todos os modelos e definiu uma ordem de preferência com base em anos de conhecimento sobre fones, mas sim porque aqueles são os modelos com melhores notas na Amazon ou algo do tipo. E a Amazon, cabe pontuar, é conhecida por não ser nada confiável em relação às opiniões de "compradores".

Isso não é jornalismo — e, se fosse, seria um péssimo jornalismo. Não há apuração real, não há transparência com o público sobre as metodologias usadas, e não há garantia alguma que aquele texto retrate a realidade. Mas, para os donos dos sites, se estiver gerando vendas (e, consequentemente, comissões), nada disso importa. Pelo contrário: quando esses textos começam a se mostrar lucrativos, logo a estratégia é expandida para outros tipos de produtos. E, se inicialmente você tinha, no mínimo, uma pessoa que entende de eletrônicos falando de eletrônicos, por mais superficial que o texto fosse, a situação fica ainda pior quando você tem pessoas que entendem de eletrônicos (e, às vezes, nem isso) falando de lençóis, shakes protéicos e chapinhas de cabelo. Ao menos a pessoa que escreveu a comparação das chapinhas realmente usou os produtos.

Isso faz com que haja uma migração do intuito fundamental destes veículos de comunicação. Em vez de informar de forma responsável, angariando credibilidade e usando o público fiel como argumento para a venda de espaço publicitário, os portais se tornam apenas meia dúzia de materiais realmente jornalísticos perdidos entre uma infinidade de conteúdos que podem até oferecer uma migalha de informação, mas têm o objetivo principal de vender. Deste modo, a única informação real só é útil para quem pretende tomar uma decisão de compra, o que não se categoriza como jornalismo. Ainda que sigam se nomeando veículos de notícias, esses portais tornam-se tão somente vitrines de infomerciais — ou, comparando com outro tipo de mídia, dizem ser a GloboNews, enquanto são apenas o Shoptime.

Meme de Ciro Bottini, ex-apresentador do canal Shotime, com o bordão "compre, compre, compre" popularizado por ele
Se não comprar, a gente vai insistir ainda mais. Se comprar, também.

Mudando rapidinho (mas nem tanto) de assunto (mas nem tanto)

Só que essa necessidade de ampliar os lucros falando de temas totalmente distintos daqueles de que o site (supostamente) trata pode ser um tiro que sai pela culatra. Isto porque as ferramentas de busca não qualificam a credibilidade de um jornalista ou um veículo apenas indo de "mais confiável" a "menos confiável". Plataformas como Google e Bing conseguem detectar sobre quais assuntos uma pessoa tem domínio, de quais tópicos um site trata com precisão, e percebem quando há uma mudança atípica nos temas tratados. Isto leva à perda de audiência que mencionei há alguns parágrafos.

Ao perceber que um site de eletrônicos está noticiando menos lançamentos de celulares e mais plataformas de cassinos online, por exemplo, um motor de busca derruba a relevância do portal em questão — em relação a todos os temas. Isso ajuda (em tese, visto que a busca do Google está cada vez pior — problema sobre o qual discorro na série de textos sobre merdificação) a discernir os veículos que "fingem saber" sobre determinados assuntos. A dificuldade, aqui, é que há um "ritmo" de mudança que consegue burlar essa detecção, então basta o portal ir fazendo estes materiais "aos poucos" para não ativar o alerta.

Há uma lógica para isso, do ponto de vista das plataformas de busca: não obrigar sites a manterem-se em um nicho para sempre. Se os gestores de um portal percebem que seus leitores se interessam por temas correlatos, ou se os próprios repórteres sugerem cobrir algum assunto novo de forma mais cotidiana, esse tipo de decisão editorial é totalmente legítimo. É algo tão corriqueiro deste mercado, inclusive, quanto estas decisões se mostrarem desvantajosas — levando até mesmo grandes portais a encerrar editorias inteiras.

O problema é que isso abre uma brecha para quem busca apenas maximizar lucro com coberturas de baixa qualidade. Voltando ao exemplo das matérias "jogos de hoje": o gestor de um portal de tecnologia decide entrar na competição pelo público destes textos, e, para isso, se aproveita que o site já publica, por ser um assunto dentro do seu escopo, conteúdos sobre plataformas de streaming.

Ao longo de algumas semanas, são feitos textos como "é possível assistir jogos de futebol no site XYZ?", "melhores serviços de streaming com conteúdo esportivo", "campeonato de futebol XYZ terá transmissão online pela primeira vez", e similares. Uma vez que o monitoramento dos acessos mostre que estes textos estão aparecendo com destaque em buscas online, é possível passar para textos mais abrangentes, como "veja onde assistir futebol online", "quais campeonatos têm transmissão no streaming", e aí por diante. Uma vez que esses conteúdos também apresentem bom desempenho, matérias diárias já terão, provavelmente, muitos acessos.

Com estratégias assim, o site "de tecnologia" pode publicar sobre futebol, filmes e séries, eletrodomésticos, gastronomia, e praticamente qualquer assunto, bastando fazer essa adição de forma gradual. Isso ocorre porque os serviços de busca classificam a expertise dos sites em duas frentes:

  • Credibilidade: o quanto o site é confiável, em um sentido mais amplo — se o conteúdo publicado é de qualidade; se é possível perceber um processo de apuração nos textos; se o site apenas replica matérias e escreve sobre assuntos depois que eles ganham repercussão, ou se tem material original e não fica só correndo atrás de temas virais; e se não propaga desinformação e boatos. Esta métrica é uma só para o portal inteiro;
  • Autoridade: o quanto o site (e os jornalistas, individualmente) sabe sobre o que está publicando, baseado em anos de material que as plataformas de busca armazenam. Esta métrica é calculada para diversos temas, pois, obviamente, um site sobre música, por mais credibilidade que tenha, não será uma fonte de informação (especializada, ao menos) sobre gastronomia, por exemplo.

Quando conteúdos sobre um tema novo começam a aparecer em um site de forma brusca, tanto ele é "penalizado" de forma mais restrita, no sentido de que precisa construir do zero a autoridade sobre aquele tema, quanto é penalizado de forma mais ampla, como pontuei alguns parágrafos acima, por ter mudado de área ou adicionado repentinamente um assunto que não tem o costume de cobrir.

O raciocínio faz sentido. Imaginemos que a equipe médica do hospital mais bem avaliado do país se oferecesse para projetar um prédio, e que um estúdio de arquitetura com dezenas de prêmios anunciasse que passará a realizar cirurgias. Não apenas seria pouco provável que alguém confiasse na capacidade técnica destes profissionais para estas tarefas (ainda que a capacidade técnica destes, em suas respectivas áreas, seja inquestionável), como o próprio hospital e o próprio estúdio passariam por um escrutínio público significativo pela mudança drástica, mesmo que mantivessem, em paralelo, seus serviços originais.

Mas, se o estúdio anunciasse um novo departamento dedicado a projetar unidades de saúde; após alguns projetos bem sucedidos, fundasse uma empresa de gestão hospitalar; e, só com essa expertise bem estabelecida, contratasse cirurgiões, o processo seria muito mais confiável.

Um bom exemplo é o conglomerado cearense Marquise: inicialmente uma construtora, com diversos contratos no setor público, na década de 1980 passou a operar com coleta de lixo; na década de 1990, inaugura um hotel próprio; nos anos 2000, volta a atuar com incorporação, e amplia o negócio de coleta de lixo para limpeza urbana em geral; nos anos 2010, passa também a construir e administrar shopping centers. O grupo chegou a atuar ainda com serviços financeiros e ter diversos veículos de comunicação. Não por acaso, os dois setores em que a empresa não atua mais são justamente aqueles em que não há um caminho "gradual" partindo dos ramos de atuação que existiam previamente.

Obviamente, quando falamos de publicações online, estamos tratando de negócios que atuam em um mercado com muito mais dinamismo, e cujas mudanças precisam de muito menos tempo para serem executadas. Para além disso, não há (via de regra) problemas mais complexos envolvidos, como investimentos milionários, questões regulatórias, nem contratações de dezenas ou centenas de pessoas. E, por fim, a gradualidade do processo não é para ganhar a confiança da sociedade, de grandes clientes corporativos, ou de entes estatais, mas sim para convencer o algoritmo de dois ou três sites de busca.

E, principalmente, há a questão de que não existe um intuito real em migrar o ramo de atuação dos portais, nem mesmo adicionar novas coberturas dedicadas. O objetivo dos gestores do site, inclusive pela própria "flexibilidade" que isso lhes proporciona nesse aspecto de busca incessante do lucro, não é que o portal deixe de ser "exclusivamente" sobre Tecnologia. A ênfase é em descobrir materiais que podem ser produzidos de forma massiva, com o mínimo de esforço, independentemente do assunto.

Não pode-se considerar que há, por exemplo, uma intenção real em cobrir futebol se os conteúdos produzidos sobre o tema são apenas "jogos de hoje" ou "onde assistir Time A x Time B", sem publicar notícias a respeito das dezenas de equipes do esporte, nem mesmo sobre os maiores clubes, exceto casos que rompam até a bolha da cobertura especializada e viralizem. E, nestes casos, a publicação será não por ser relacionada a futebol, mas por ter um potencial alto de acessos.

O que não é notícia (e jornalismo) de tecnologia

Este texto já está mais longo do que seria saudável, e já abordou demais temas tangentes. Para encerrar, trago esta pontuação: é mais fácil indicar o que não é notícia de tecnologia, do que apontar o inverso.

A lista dos parágrafos acima não é exaustiva, mas já oferece algum norte:

  1. Situações que um tema X é conectado com tecnologia, mas a cobertura procura focar no tema X;
  2. Relacionado ao ponto anterior, quando a baixa probabilidade de veículos de tecnologia cobrirem o tema X é usada como recurso para tentar direcionar a atenção a uma empresa;
  3. Tópicos sem relação alguma com Tecnologia, mas que, por terem qualquer vestígio de ligação a aparelhos eletrônicos ou internet, são vendidos como Tecnologia;
  4. Temas cuja relação ínfima ou inexistente com Tecnologia é ignorada porque publicações sobre aquele assunto rendem muitos acessos;
  5. De forma similar ao ponto anterior, casos em que os sites vão gradualmente "se entranhando" em temas não ligados a Tecnologia, sem a intenção de passarem a cobrir amplamente estes temas, mas apenas para poderem produzir matérias caça-cliques sobre tópicos muito específicos.

Como pontuei no primeiro parágrafo, o intuito deste texto é aprofundar os motivos de determinadas decisões editoriais do Citei. Uma destas decisões é precisamente não publicar matérias que se enquadrem, em hipótese alguma, nos casos que descrevi acima.

O intuito é que, aqui, o leitor encontre conteúdos verdadeiramente sobre Tecnologia; e não publicações cuja existência pode ser justificada apenas com intensos contorcionismos argumentativos e tecnicalidades, buscando fingir serem legítimas condutas obviamente anti-éticas. Isto implica em abrir mão de formatos de conteúdo que poderiam render uma quantidade imensa de acessos, e de cobrir determinados temas (ou de cobrir temas sob determinados pontos de vista) com grande potencial financeiro. Mas, mesmo no contexto "redação de uma pessoa só" no qual surge o Citei, é fundamental que haja uma separação muito bem definida (e intransponível) entre a parte editorial e a parte comercial do site, e que a segunda jamais possa determinar as ações da primeira.

Merdificação, parte 3: computadores com enshittification "de fábrica"
Se o próprio sistema operacional é pensado na lógica da merdificação, não basta se livrar de aplicativos e parar de usar sites que tenham enshittification (crédito da imagem: Colagem sobre arte de Devin Washburn)

Merdificação, parte 3: computadores com enshittification "de fábrica"

Pouco adianta despender um esforço imenso tentando evitar merdificação em sites e apps se o próprio dispositivo tem enshittification como "funcionalidade"

Merdificação, parte 1: não é impressão, tudo na internet piorou
Tudo na internet parece que está ficando uma merda. A boa notícia é que não é loucura sua. A má notícia é que tudo na internet está ficando uma merda. (Crédito da imagem: Colagem sobre arte de Devin Washburn)

Merdificação, parte 1: não é impressão, tudo na internet piorou

Também chamada "merdificação" em português, termo criado por jornalista canadense resume tendência do capitalismo de transformar tudo em... Bem, em merda